segunda-feira, 4 de maio de 2026

As azenhas e os moinhos da União de Freguesia de Além da Ribeira e Pedreira

 

As azenhas e os moinhos representam a forma mais evoluída de um sistema primitivo de trituração dos grãos cereal entre duas pedras, para fabrico de farinhas alimentares, cuja origem remonta ao período mesolítico, em relação com as primeiras conquistas e aquisições do homem agricultor, e ao qual mais tarde se adaptou um engenho motor, que substituiu a força do braço pela ação das correntes da água ou do vento (Dias, Veiga, & Galhano, 1959).

A freguesia tem apenas azenhas ou moinhos movidos a água e a sua classificação tipológica assenta apenas na diversa conformação da sua parte motora, derivada das várias circunstâncias e caraterísticas da queda de água que os aciona.

As azenhas podem agrupar-se em duas grandes categorias, conforme a posição relativa da água que as aciona, que ou cai de alto, batendo e enchendo os copos que guarnecem a periferia da roda – as azenhas de copos, ou copeiras (Exemplo: fig. 1 - Azenha da Ti Luísa – Boco/Vagos), ou corre por baixo, empurrando as palhetas dispostas radialmente à sua volta – as azenhas de rio (era o caso do moinho do Sobreirinho).

Exemplo de uma azenha em funcionamento:

Figura 1 - Azenha da Ti Luísa – Boco/Vagos

 

Os moinhos de rodízio são engenhos hidráulicos tradicionais, comuns no norte de Portugal, caracterizados por uma roda motriz horizontal (rodízio) situada numa estrutura inferior (cabouco), movida pela força da água (IA). 

Exemplo de um moinho em funcionamento:

Figura 2 - Moinho em Caxarias - Nuno Ferreira - 2012

 

Esta classificação é essencial para perceber ou melhor caraterizar os sistemas de moagem da freguesia, pois como se verá mais à frente. Como exemplo temos referência no livro de Amorim Rosa e no contexto popular chamamos ou designamos como o Moinho do Curto, no entanto, e confirmado com o dono, a sua roda estava montada na vertical, logo o correto é ser chamado azenha e não moinho como tem sido feito, é provável que tenha sido adaptado, ou seja, no início era moinho e por motivo de se tornar mais vantajoso/rentável passou a ser azenha, quem sabe (Silva, 2018)??

Nos moinhos que na minha interpretação a designação correta será azenha irei colocar um asterisco (*).

Contexto histórico:

“Na Idade Média, dado o seu elevado custo de construção, os moinhos hidráulicos pertenciam normalmente à Coroa, à grande nobreza, ao alto funcionalismo régio e à Igreja (Silva, 2018).”

Exemplo disso são os moinhos do Prado e mais tarde a Azenha do Curto.

“Em fevereiro de 1179, D. Ooiro doou à Ordem do Templo a sua herdade dos Moinhos do Prado reservando o usufruto para sua mulher D. Toda Mendes. Era então o comendador de Portugal D. Frei Raimundo, e de Tomar D.  Frei Martinho Formarigo (Rosa, 1965).”

A extinção dos moinhos à partida está relacionada com a concorrência das fábricas de moagem e melhoria dos transportes, o facto de os moinhos da freguesia serem movidos a água, tornava a produção de farinha limitada, o êxodo rural a partir da década de 50/60?

“Em 16 de junho de 1897, João Torres Pinheiro montou uma fábrica de moagem «A Nabantina» no local onde estavam os velhos moinhos de farinha da Ribeira da Vila. (...)

Em 1912, Manuel Mendes Godinho mandou arrazar o Lagar de El-Rei... e no seu lugar fez levantar um edifício de vários andares para montar uma moderníssima Moagem: «A Portugália» (Rosa, A História de Tomar II, 1965)”.

A freguesia tinha azenhas e moinhos de rodízio (infelizmente não existe nenhum em funcionamento, estando todos eles em estado avançado de ruína) movidos a água, ao longo da Ribeira da Fervença/Póvoa/Milheira[1] e do rio Nabão que foram utilizados para moer cereais.

As azenhas e moinhos para conseguirem moer o trigo ou outro cereal precisavam que a água chegasse até lá e é por isso que a maioria tem ao seu lado uns canais de água – as levadas. Também era necessário regular o caudal da água, uma das formas era construir açudes, que consistem num muro erguido, para elevar o nível e o volume de água .

A localização dos moinhos era longe das aldeias, o transporte dos cereais para moer e a farinha, era feito com a ajuda dos burros ou mulas.

A minha mãe quando tinha entre os 12/14 anos (1968/70) foi muitas vezes na mula buscar farinha aos moinhos da fervença.

Na casa dos meus avós Manuel (Sombrio) e Maria (Sapateira), o trigo era semeado no Barrusco e moído no verão, o milho vinha das terras de regadio perto do Agroal e era moído no inverno.


Segue-se a identificação das azenhas e moinhos da freguesia, estes estão divididos pelas freguesias antes de estarem unidas e por ordem alfabética.

1 -  Azenhas e Moinhos do lado de Além da Ribeira

1.1    – Azenha do Cairrão (1530?)

A azenha talvez seja a construção que está junto à Fonte do Cairrão, onde desagua a Ribeira da Soianda Velha na Ribeira da Fervença/Póvoa/Milheira (um pequeno paraíso – aqui quando não havia água junto à Ponte Romana, era onde eu e a minha mãe vínhamos lavar roupa), tem uma levada a seu lado.

Informações encontradas:

“Em 1530 há referência a 4 moradores no lugar da Azenha do Cairrão.

Em 1641, a propósito de uma questão com um moinho do Agroal, junto à nascente, aparece, mencionado o nome do proprietário António Duarte, da Enxofreira, e uma testemunha do Vale do Poço. Esta refere os moinhos das Lapas como já estando alagados. Outra testemunha alude aos moinhos da Ribeira da Póvoa – Cairrão e Milheira (Rosa, A História de Tomar II, 1965).

 

Coordenadas: 39.657026445281545, -8.398765135376772

Figura 3 - Nascente do Cairrão - Nuno Ferreira - Abr26

 

1.2    - Azenha - Porto de Cavaleiros – margem esquerda

Azenha em Porto de Cavaleiros junto à margem esquerda do rio Nabão, existem apenas alguns vestígios (antigas paredes), o acesso terá de ser feito pelo terreno, atenção ao seu cultivo.

Coordenadas: 39.65619667815235, -8.427080674477432 em frente à fábrica

 

Figura 4 - Azenha de Porto de Cavaleiros - Cristina Henriques - 2014

1.3    – Moinho* do Alfaiate ou Moinho* Velho

 Moinho junto ao Rio Nabão, a norte da Gruta do Morgado, ainda tem visível o apoio da roda em frente na outra margem (freguesia da Sabacheira) situava-se o Moinho* do Administrador ou mistrador[2] (Coordenadas: 39.658723704783476, -8.421453558217236).

Coordenadas: 39.65896683438718, -8.421614454080851

 

Figura 5 - Moinho Velho ou do Alfaiate - Cristina Henriques - Mai22

Figura 6 - Moinho Velho ou do Alfaiate - Sérgio Lopes

 

Figura 7 - Moinho*do mistrador 1942 - facebook Hilário Guia

1.4    - Moinho do Vital perto do Casal das Várzeas

Moinho junto à Ribeira da Fervença/Póvoa/Milheira localiza-se junto  um açude na zona da Loureira antes de chegar ao Pego Estufo (onde desagua a Ribeira no rio Nabão)

Coordenadas: 39.647736402569606, -8.40710508110903

 

Figura 8 - Moinho do Vital perto do Casal das Várzeas - Cristina Henriques - 2014

Figura 9 - Moinho do Vital perto do Casal das Várzeas - Cristina Henriques - 2014

 

1.5    - Moinho e Lagar do Casal Velho

O moinho era junto ao lagar, o seu moleiro vivia na casa (39.669672874686306, -8.395400246080182) do outro lado da ribeira, localiza-se junto à Ribeira da Fervença/Póvoa/Milheira no Casal Velho ou Casal de Baixo, movido a água onde o rodízio está no cabouco e o piso de cima fica a um nível ligeiramente superior ao do leito da ribeira. O seu dono em 1971 era o Sr. Manuel Pereira – Pianã da Enxofreira. Em estado avançado de ruína.

Coordenadas: 39.66977364738493, -8.394874984707387

Figura 10 - Moinho do Casal Velho e Casa do Moleiro do lado esquerdo - Nuno Ferreira - 2020

1.6    – Moinho* e Lagar do Curto

Moinho e Lagar de Azeite com referência desde pelo menos 1660, movido a água, localiza-se junto à Ribeira da Fervença/Póvoa/Milheira, talvez inicialmente apenas para produção de farinha, mas também funcionou como lagar de azeite.

Em 1963 trabalhava, mas depois de 1970, já não. (Guia, 2014)

Muito perto do Moinho do Curto, havia um outro que estava relacionado com as freiras da Capela da Nossa Senhora do Mildeu (Guia, 2014).

Informações encontradas:

"Em 24 de Janeiro de 1660 foi dada sentença contra o rendeiro do Moinho* do Curto, que é das Religiosas de Santa Iria (Rosa, História de Tomar VOLII, 1982).”


Coordenadas: 39.678744758021644, -8.389194066001734

Figura 11 - Moinho e Lagar do Curto - Cristina Henriques - 2013 

1.7    – Moinhos* da Fervença

Os moinhos na Fervença ficam juntos à Ribeira da Fervença/Póvoa/Milheira, um dos acessos é seguir pela rua dos Moinhos até à Ribeira. Um moinho era do Manuel Silva (pai de António Silva – avô do Amorim, Ermelinda e Firmo), o outro moinho era do Preto (alcunha). Moinhos de duas pedras, no Inverno moía milho, no Verão trigo.

Dependia do açude do Casal de Baixo para a água lá chegar através da levada. A minha mãe nos anos 60 – talvez com uns 12/14 anos ia buscar a farinha desde a Enxofreira ao moinho da Fervença com uma mula, o moleiro era António da Silva o meu avô gostava mais desse moleiro do que o moleiro que trabalhava no moinho do Casal de Baixo do ti Pianã.

Estiveram a trabalhar até 1970 (Guia, 2014).

Coordenadas: 39.66816001681488, -8.396098695074874

Figura 12 - Moinho da Fervença - Nuno Ferreira - Ago13

 

Figura 13 . Moinho da Fervença - localização da roda

1.8     - Moinho das Lapas

Do moinho apenas restam alguns vestígios em algumas pedras junto ao Rio Nabão na direção da Foz da Ribeira do Fetal.

Informações encontradas:

“Em 1530 há referência a 4 moradores no lugar do Moinho das Lapas (aquelas pedras «cimentadas» com ferros cravados onde hoje (artigo do jornal da Cidade de Tomar de 1982 Manuel Guia escreveu) se lava a roupa).

Em 1641, a propósito de uma questão com um moinho do Agroal, junto à nascente, aparece, mencionado o nome do proprietário António Duarte, da Enxofreira, e uma testemunha do Vale do Poço. Esta refere os moinhos das Lapas como já estando alagados.

Em 22 de abril de 1685 o Juiz de Fora de Tomar mandou demolir um açude e uma levada, no sítio das Lapas, que António Ferreira, da Milheira, tinha feito para um Moinho, no rio Nabão(Rosa, A História de Tomar II, 1965)

. “

 

Coordenadas: 39.660224410565846, -8.413248646316388

 

Figura 14 - Vestígios Moinho? - Nuno Ferreira - 2015

 

1.9     - Moinho da Milheira 1

Do moinho apenas restam alguns vestígios em algumas pedras junto à Ribeira da Fervença/Póvoa/Milheira, do lado esquerdo da Ponte da Milheira (sentido Póvoa/Tomar).

Coordenadas: 39.65252810366224, -8.403939646097882

Figura 15 - Moinho da Milheira 1- Cristina Henriques – 2015

1.10 - Moinho da Milheira 2

O moinho é agora uma pequena construção de apoio à horta, tendo a levada a seu lado. Localiza-se junto à Ribeira da Fervença/Póvoa/Milheira, do lado direito da Ponte da Milheira (sentido Póvoa/Tomar).

Informações encontradas que não se sabe a qual moinho faziam referência?:

“Em 1641, a propósito de uma questão com um moinho do Agroal, junto à nascente, aparece, mencionado o nome do proprietário António Duarte, da Enxofreira, e uma testemunha do Vale do Poço. Esta refere os moinhos das Lapas como já estando alagados. Outra testemunha alude aos moinhos da Ribeira da Póvoa – Cairrão e Milheira.

Em 1682 o Juiz de Fora de Tomar, deu sentença contra Martim Nabo Pessenha e seu moleiro do moinho da Milheira, sobre as águas que vêm do dito moinho para as Várzeas do Prado.

Em 1717 o Juiz de Fora de Tomar, deu sentença contra Luís de Salazar Vasconcelos e contra o seu moleiro do Moinho da Milheira-Póvoa sobre as águas que vinham do dito moinho para as Várzeas do Prado(Rosa, A História de Tomar II, 1965)

.”

Coordenadas: 39.65196918297401, -8.404459229922503

Figura 16 - Moinho Milheira 2 – Cristina Henriques - 2015

1.11 – Moinho no Porto Compadre

Moinho em ruínas junto ao Rio Nabão no Porto de Compadre era do Bisavô de Sérgio Lopes. O pai de José Lopes ajudava na distribuição da farinha pelos fregueses. Fechou em 1954 ou 1955. veio uma grande cheia que levou açude, ponte e parte do moinho e depois não havia dinheiro para recuperar tudo. a ponte era para ir para a freguesia da Sabacheira, donde era a maioria dos clientes e donde era natural o dono, que era o meu sogro. ele já herdou aquilo.
 
Coordenadas: 39.671790603304586, -8.429499646078854

Figura 17 - Moinho Porto Compadre - Nuno Ferreira - 2021

 

1.12  – Moinho da Póvoa

Moinho que se vê da Póvoa, junto ao açude na Ribeira da Fervença. Construção recuperada para arrumos, pertence a Afonso Pardal da Póvoa

Coordenadas: 39.659353168118585, -8.402427617724799

Figura 18 -  Moinho da Póvoa - Cristina Henriques - nov14

 

1.13  - Fábrica de Papel do Sobreirinho e seus moinhos

1882 – Ano em que foi inaugurada a Fábrica de Papel de Porto de Cavaleiros (8 de Março).A Fábrica de Papel do Sobreirinho bem como os seus moinhos de água foram vendidos por António Santos Monteiro à Fábrica do Papel do Prado e Marianaia (25 de Abril). 

Coordenadas: 39.653894657224, -8.410898790282966

Figura 19 - Moinho do Sobreirinho - Nuno Ferreira - abr13

Figura 20 - Moinho do Sobreirinho - Nuno Ferreira - abr13

2          -  Azenhas e Moinhos do lado da Pedreira

2.1    - Azenha - Porto de Cavaleiros – margem direita

Azenha em Porto de Cavaleiros junto à margem direita do rio Nabão, antes de ser fábrica?.

Coordenadas: 39.657227178089485, -8.428934214866391

 

Figura 21 -Mós da  Moinho de Porto de Cavaleiros . Nuno Ferreira - 2022

Figura 22 - Fábrica/Moinho em 1900 - facebook

2.2    – Moinho* do Caldeirão

Moinho na marquem direita do Rio Nabão junto à Fonte e Praia Fluvial do Caldeirão que pertenceu a Manuel Rosa do Fetal de Baixo, apenas existem as mós (Guia, 2014).

Coordenadas: 39.64500764245643, -8.410116088555057

Figura 23 - Moinho do Caldeirão - Nuno Ferreira - Abr26

Figura 24 - Moinho do Caldeirão - Nuno Ferreira - Abr26

2.3    – Moinho* do Evaristo

Moinho junto à margem direita do Rio Nabão entre Porto de Cavaleiros e a Mendacha onde ainda se consegue visualizar uma parede.

Coordenadas: 39.65882349459402, -8.430528890965288

Figura 25 . Moinho do Evaristo - Nuno Ferreira - Fev25

2.4    – Moinhos da Fábrica Prado Karton  

Os moinhos de pelo menos de 1179 (Rosa, 1965) estão dentro da Fábrica Prado Karton  – Companhia de Cartão, S.A.

De seguida transcrevo excertos que fazem referência aos moinhos do Prado retirados de alguns Anais do Município de  Tomar e do livro História de Tomar Vol.I de Amorim Rosa 

“-Herdade dos Moinhos do Prado – Mestre do templo – Comendador e Alcaide de Tomar

Carta de doação à ordem do Templo de uma herdade aonde se chama Moinhos do Prado:

«em nome de Deus notificamos aos presentes e aos futuros que eu, Don Ooiro, de acordo com a minha mulher Toda Mendes, temente de Deus, por nossa morte damos a Deus e à Casa do templo, toda a nossa herdade tal como a havemos vista, nos Moinhos do Prado.

E Dona Toda ficará com o uso fruto depois da morte de Don Ooiro.

Igualmente ficam os freires os moinhos da moenga.

Para confirmar este facto estiveram presentes ...D. Tomás fez. Feita no mês de fevereiro de 1217 (1179).

Em fevereiro de 1179, D. Ooiro doou à Ordem do Templo a sua herdade dos Moinhos do Prado reservando o usufruto para sua mulher D. Toda Mendes. Era então o comendador de Portugal D. Frei Raimundo, e de Tomar D.  Frei Martinho Formarigo (Rosa, 1965).

Foi mandado fazer pelo Comendador de Portugal, D. Raimundo, e pelo Comendador de Tomar, D. Martinho Formarigo, e seu capelão D. Luís Martins.

Quem falseie seja excomungado com vida e, depois , precipitado no inferno.

Testemunhas: Pedro Gonçalves, presbítero; Gonçalo Dias; Pedro Mendes, etc. Pág. 48 

 IV – Comenda do Prado

Essa Comenda haja moinhos do Prado que são 6 e uma sede para moinho

A horta e o olival que valem  600 libras

Idem os casais que hi são feitos de Aquém e Além do Rio

Idem as caas de morada desse logar ..

»»Adega da Várzea Pequena que se chama «do Prado»

»» a vinha que tem Porto Carreiro

Do prado, já sabemos que foi doado em Fevereiro de 1217 ( 1179 da nossa era), e consta que os moinhos datam do primeiro procurador do Templo em Portugal, o que me parece um tanto duvidoso pois remontá-los-ia à segunda ou terceira década do Século XII, em que o Prado ainda estava nas «terras de ninguém», embora afastado das «penetrantes principais». Pág 67 (Rosa, 1965)

“1835 – o diário do Governo n.º 256, de 30 de outubro, manda por em hasta pública, em 23 de janeiro de 1836, os seguintes bens da Ordem de Cristo: Os Moinhos do Prado, de fazer farinha, que constam de 3 casas, uma das quais serve de cavalariça, e outras duas de residência dos moleiros, com duas hortas pequenas, uma várzea e terras de pão. Tem 5 pedras, 2 de azenha e 3 de rodízio, sendo 3 alveiras e 2 secundeiras. Partem de todos os lados com terras pertencentes ao extinto convento. Vai à praça em 2435$00 – pág. 430 (Rosa, Anais de Tomar 1801-1839, 1967).”

Coordenadas: 39.643592277693095, -8.403309193889827

Figura 26 - Moinhos do Prado - facebook 2024

No link seguinte consegue obter a:

Localização no Google Maps das azenhas e dos moinhos da União de Freguesia de Além da Ribeira e Pedreira

 

Bibliografia consultada e citada:

Rosa, A. (1967). Anais de Tomar 1801-1839. Tomar: Câmara Municipal de Tomar.

Silva, L. (2018). Os Moinhos e os Moleiros do Rio Guadiana Uma visão antropológica. Lisboa: Fernando Mão de Ferro.

Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano. (1959). Sistemas Primitivos de Moagem em Portugal Moinhos, Azenhas e Atafonas. Porto: Imprensa Portuguesa.

Valongo está a reabilitar antigos moinhos para criar rota de visitação | Verdadeiro Olhar

Origem e história

bma26.pdf

 

Curiosidades:

Em 18 de julho de 1645 o Convento de Cristo comprou a António Duarte, da Enxofreira, o moinho que este construíra na Fonte do Agroal



[1] A Ribeira da Fervença ou da Póvoa ou da Milheira, tem estas três designações de acordo com a localidade onde passa (pelo menos na freguesia), mas é a mesma e esta nasce em Ferreira do Zêzere. Quando era pequena para mim eram três ribeiras diferentes (será que era só para mim?).

 

[2] o vocábulo “administrador” por admistrador ou mistrador, são fenómenos fonéticos de linguagem popular, que pelo facto de serem pronunciados por pessoas que quase não sabem ler e escrever, podem ser interpretados oralmente de forma diversa; file:///C:/Users/07505895/Downloads/content%20(1).pdf

 

domingo, 12 de abril de 2026

Lagares de Azeite da União de Freguesias de Além da Ribeira e Pedreira


A oliveira faz parte da paisagem agrícola da região de Tomar e claro da nossa freguesia pelo menos desde o Séc. XVI, prova disso é “Ao redor deste Casal, por compras e trocas, adquiriu D. António outras casas, terras e olivais, em que juntou e fez esta Granja, e a mandou cercar de pedra em redor, salvo da banda que entesta com o rio (Rosa, 1965).” a aquisição da Quinta da Granja pelo Frei António.

Outro facto é de que o fabrico do azeite é regulamentado na região desde 1162 no 1º Foral dado à Vila de Tomar por D. Gualdim Pais, 4º Mestre do Templo: em nenhumas azenhas non dedes mais ca de XIII partes uma, sem ofreção (Guimarães, 1979)

Segue dois exemplares de oliveiras antiquíssimas:

Figura 1 - Oliveira na Enxofreira – 2013 - 39.683510048777784, -8.417343748916496

Figura 2 - Oliveira nas Casas Velhas – 2013 - 39.69271982101227, -8.412507726075082

A nossa freguesia é atravessada pelo rio Nabão e outros cursos de água, tais como a Ribeira da Fervença, o Ribeiro de Paio Nunes e é junto destes que surgem os primeiros??? lagares de azeite.

No livro “A Oliveira e o Azeite na Região de Tomar – usos e costumes” de Manuel da Silva Guimarães encontramos dados dos lagares existentes no Concelho de Tomar em 1971:

Além da Ribeira (pertencia à freguesia de Casais) – Em Pedregulho (Póvoa) de António da Silva, na Enxofreira (Pereiro) de Francisco Mendes e em Casal de Baixo de Manuel Pereira.

Pedreira – Em S. Simão de João Azevedo e outros, na Pedreira haviam dois, um de Aparício Jacinto Cardoso e outros e outro de António Pereira da Costa, na Estrada do Prado aparece referência a um lagar que pertencia a António Gomes Madureira, na Arrascada aparecem dois, um de Manuel da Fonseca Balas que é o que se situava? junto à Quinta da Granja e outro pertencia a António Jerónimo.

Funcionamento dos lagares tradicionais:

O aparelho principal é o moinho ou vasa (galgas, mós, rodas moedoras, moinho de martelo, moinho espanhol e pedras, são designações idênticas comuns nas diferentes freguesias), constituído por um tanque redondo, com as paredes interiores de pedra ou chapa levemente inclinadas para o centro, onde recebe a azeitona que as mós de pedra vão esmagando mais ou menos lentamente. Ao centro, um eixo de ferro sustenta os cabos das mós e assegura a ligação com o veio central (peão) que liga todo o sistema à tração animal ou motora que aciona as pedras e lhe permite o esmagamento.

Os moinhos poderão ser movidos pela força animal ou de sangue, de água ou de fogo (motor). Os de água deixaram de funcionar à mais tempo, sendo agora os de fogo os existentes.

Dos 8 lagares existentes do lado de Além da Ribeira e dos 4 lagares do lado da Pedreira apenas o lagar dos Vales está a trabalhar, todos os restantes estão em avançado estado de ruína e outros a sua existência foi substituída por casas de habitação restam ainda as memórias de quem ainda viveu nesses tempos.

1 - Lagares do lado de Além da Ribeira

1.1    - Lagar do Casal Velho e Moinho

O lagar localiza-se junto à ribeira da Fervença no Casal Velho ou Casal de Baixo, movido a água onde o rodízio está no cabouco e o piso de cima fica a um nível ligeiramente superior ao do leito da ribeira. O seu dono em 1971 era o Sr. Manuel Pereira - Pianã. Em estado avançado de ruína, pode-se ainda observar as tulhas em cimento, as duas mós de pedra dentro de tanque de folha em forma de alguidar para triturar a azeitona, duas prensas hidráulicas para enceirar a massa da azeitona (no chão em 2013 ainda se encontravam ceras fig. 7)…

Coordenadas 39.66977364738493, -8.394874984707387

 

Figura 3 - Lagar Casal Velho - Nuno Ferreira Ago13

    Figura 4 - Lagar Casal Velho - Tulha - Nuno Ferreira Ago13

Figura 5 - Lagar Casal Velho - Moinho - Nuno Ferreira Ago13

 Figura 6 - Lagar Casal Velho – Prensas Hidráulicas - Nuno Ferreira Jun24


                                             Figura 7 - Lagar Casal Velho - Cera - Nuno Ferreira Ago13

1.2 - Lagar e azenha do Curto

Coordenadas: N 39˚39.298’ W 008˚24.008’

Lagar e azenha (a roda motriz encontrava-se em posição vertical, ainda há o vestígio da água a cair do alto – fig.9) de pelo menos de 1660, movido a água, localiza-se junto à ribeira da Fervença, talvez inicialmente apenas azenha para produção de farinha, mas também funcionou como lagar de azeite.

Este lagar era de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 11).

Coordenadas: 39.678744758021644, -8.389194066001734

Figura 8 - Retirado do livro "Coisas da Minha Terra"


Figura 9 - Lagar e Azenha do Curto - Nuno Ferreira12

Figura 10 - Lagar e Azenha do Curto - local da roda - Cristina Henriques Dez14

           Figura 11 - Lagar do Curto - As mós e o peso - Cristina Henriques Dez14

1.3 - Lagar da Fervença

Lagar movido a água em ruínas junto à ponte e ribeira da Fervença, foi do António da Silva da Póvoa, trabalhou até 1942.

Coordenadas: 39.66496917011426, -8.400242084961551

                                   Figura 12 - Lagar da Fervença - Cristina Henriques Dez14

1.4 - Lagar do Pereiro (Enxofreira)

Lagar no Beco do Lagar no Pereiro, inicialmente movido a bois e depois a fogo. Começou antes de 1900,  foi do bisavô do Carlos (Lobo) depois passou para o avô e mais tarde para um tio (os Mendes), só depois passou para cooperativa, esteve uns anos parado e depois reabriu em nome do atual dono e do pai (2014) durante mais um ano ou dois, tendo fechado por completo em 2000/2001.

Neste lagar ainda se visualiza as tulhas de cimento (fig. 15) que iam guardando o fruto que será esmagado pelas galgas. O número de tulhas varia consoante a capacidade do lagar. Por cada prensa ou vara há normalmente dez tulhas em cada lagar.

Os capachos que se encontram por cima das tulhas eram fabricados artesanalmente (na Escola Primária da Póvoa existia um à frente da porta para limparmos os sapatos) e, eram nestes capachos que cheios de massa levavam com água quente sendo depois empilhados sobre o estrado da prensa, a que se dá o nome de algués, saindo daqui o bagaço (fig. 14).

Coordenadas: 39.68197019189655, -8.41436123318038

Figura 13 - Lagar do Pereiro - Cristina Henriques Nov14

Figura 14 - Lagar do Pereiro - Cristina Henriques Nov14

Figura 15 - Lagar do Pereiro - Tulhas e Capachos - Cristina Henriques Nov14

1.5 - Lagar da Póvoa I (Pedregulho)

Lagar junto à estrada Principal da Póvoa (antigamente designado Pedregulho), perto da Casa do Zé Fagulha, movido a fogo, onde os meus pais faziam o azeite. Iniciou em 1943 e fechou pelos anos 90.

Coordenadas: 39.66491342217262, -8.40443169540719


                                        Figura 16 - Lagar da Póvoa - Cristina Henriques Set13

 

Figura 17 - Lagar da Póvoa - Cristina Henriques Set13 

1.6 - Lagar Velho da Póvoa II

Lagar que se no Canto do Lagar Velho na Póvoa, no início as mulas puxavam as galgas, está em ruínas, pela área que ocupa tinha uma dimensão considerável para a época.

Este lagar era também de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 19).

Coordenadas: 39.65558275193413, -8.40507274337684

 

Figura 18 - Lagar Velho Póvoa - Cristina Henriques Nov14

 

Figura 19 - Lagar Velho da Póvoa - Cristina Henriques Nov14

1.7 - Lagar da Póvoa III

Lagar que já não existe, situava-se onde é agora a Casa Mortuária da Póvoa, pertencia ao marido – Chico, da Maria Duarte da Taberna à esquina.

Coordenadas: 39.65823263549142, -8.404256010735796

1.8 - Lagar dos Vales

Lagar de Edmundo de Freitas, localiza-se na Rua Principal nos Vales, lagar que foi modernizado. Aqui a moagem já é feita através de martelos de aço inoxidável em substituição das antigas mós de pedra.

Coordenadas: 39.686089970518196, -8.40643029077127 

Figura 20 - Lagar dos Vales - Nuno Ferreira Nov12

Figura 21 - Lagar dos Vales - Nuno Ferreira Nov12


2      - Lagares do lado da Pedreira

 

2.1     - Lagar de António Aparício Cardoso (genro do José Neto) e outros - Pedreira

O primeiro lagar  que se conhece da Pedreira (fonte: Adelino Honrado) era de José Neto e depois do seu genro António Aparício Cardoso na rua do Canto, movido com motores a gasóleo, entretanto como este era pequeno passou a funcionar mais abaixo, com dois pisos, junto à Rua Carlos Augusto Coelho quase em frente ao lagar de António Pereira da Costa, que entretanto deixou de ser movido a gasóleo para passar a ser a eletricidade. Ambos os lagares foram substituídos por habitações. No entanto, ainda é possível distinguir alguns vestígios do primeiro lagar.  A localização do segundo lagar é facilitada com o facto de o caminho a seu lado chamar-se “Az do Lagar”.

Coordenadas do primeiro: 39.640839748432875, -8.40816970321841

Coordenadas do segundo: 39.64043366894921, -8.407194370711881

Figura 22 - 1º Lagar de José Neto - Fernando Gonçalves Abr26

2.2     - Lagar de António Pereira da Costa - Pedreira

Lagar movido com animais, situava-se junto à Rua Carlos Augusto Coelho quase em frente ao lagar de António Aparício Cardoso (genro do José Neto) e outros (fonte: Adelino Honrado). O lagar também foi substituído por habitação.

Coordenadas:  39.640559878260966, -8.407489763241392

2.3     - Lagar de Manuel da Fonseca Balas* – Quinta da Granja

Lagar movido a água, situa-se em frente à Quinta da Granja do Séc. XVI, o ribeiro de Paio Nunes era a força motriz deste lagar entrando por baixo e acionando o rodízio, mas pela foto do moinho/galgas parece ter sido também movido a animais? (quando o caudal da ribeira era pouco?), em 1990 já estava abandonado (Salema, 1993).

Este lagar era também de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 25). No chão em 1997 ainda se podiam distinguir as tarefas ou fontes que recebiam a água ruça da mistura com o azeite (fig. 26).

A minha avó que hoje faz 94 anos (12 de abril de 2026), levantava-se de madrugada mais a irmã Lídia para irem apanhar azeitona na Quinta da Granja e lá ficavam durante a semana.

Coordenadas: 39.628056262255996, -8.401985520761649

*Existem dúvidas se este senhor era o dono do lagar da Quinta da Granja, pois aparece referenciado (Guimarães, 1979)  na Arrascada e não na Estrada do Prado mas...

Figura 23 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997

Figura 24 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997

Figura 25 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997


                                         Figura 26 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997


2.4     - Lagar de João Azevedo e outros – S. Simão

Lagar referenciado no livro A Oliveira e o Azeite na Região de Tomar – Usos e Costumes de Manuel da Silva Guimarães (Pág. 139) ), mas que não sei qual a sua localização.


 

A existência de todos estes lagares permite concluir que grande parte da população do início Séc. XX ainda trabalhava nos campos, tirando daí o seu sustento, algo que se foi perdendo há cerca de 40 anos, prova disso é o facto de existir na nossa freguesia apenas um lagar em funcionamento.


 Curiosidades:

 

Doenças tratadas com azeite:

Além da Ribeira (Casais): Queimaduras, dores de estômago, constipações e bicha solitária.

Pedreira: Zipelas, queimaduras, quebrantos.

 

No Fetal de Baixo as constipações curam-se com azeite, água quente e mel.

 

Doenças curáveis com chá de folha de oliveira:

Além da Ribeira (Casais): Dor de barriga, coração, dor de dentes, dor de estômago.

Pedreira: Coração.

 

Cancioneiro da Apanha da Azeitona

 

Fetal de Baixo

Namorados da Azeitona

São como os da cotovia

Acabada é a azeitona

Fica-te com Deus Maria

 

Menina do lenço branco

Com a sua nódoa de azeite

Já não há rapaz nenhum

Que a menina não enjeite

 

Digamos adeus à terra

Também ao nosso patrão

Nós vamos para a nossa casa

Levando-a no coração

 

Fervença

Azeitona verde é mimo

Eu também já fui mimosa

Como queres que eu te ame

Se eu de ti estou tão queixosa

 

Pedreira

A azeitona já está preta

Já se pode armar aos tordos

Diz-me lá ó cara linda

Como vais de amores novos

 

Corri a terra à volta

Oliveiras, olivais

Para ver se esquecia

Cada vez me lembro mais

 

Oliveira pequenina

Que azeitona pode dar

Um baguinho até dois

Já é muito que apanhar

 

 

Casal das Várzeas, Fervença e Pedreira

Azeitona miudinha

Apanhada bago a bago

Estas meninas de agora

São piores do que o diabo

 

No pé duma oliveira

C’uma grande bebedeira

Deu-me o vento e catrapaz

Fui de ventas à torneira

 

Pedreira . Porto de Cavaleiros

Corri atrás de ti

Oliveiras, olivais

Para ver se te apanhava

Cada vez foges mais

 

Ó raparigas, ó moças

Ó minhas leais amigas

Está-se a acabar o tempo

De ouvir as vossas cantigas

 

Acabámos, acabámos

Mas não de morrer agora

Acabámos a azeitona

Para nos irmos embora

 

Adivinha 

Do tamanho de uma abelha, Enche a casa até à telha

R: lâmpada de azeite

 

 

O levantamento desta informação tal como toda a que está no meu blogue deve-se a valiosos contributos de Hilário Guia, mas este artigo também teve informação prontamente disponibilizada por parte de um grande amigo  o Fernando Gonçalves que foi logo procurar saber informação dos lagares existentes na Pedreira.

 

Fontes bibliográficas:

 

Guimarães, M. d. (1979). A Oliveira e o Azeite na Região de Tomar - Usos e Costumes. Tomar: Câmara Municipal de Tomar.

 Salema, C. V. (1993). Coisas e Loisas de Tomar. Tomar: Empresa Editora Cidade de Tomar.

 

Rosa, A. (1965). História de Tomar I. Tomar: Gabinete de Estudos Tomarenses.

 

Obrigada marido e pimpolhos por vos obrigar a virem comigo. Bjs