A existência de pedra na nossa freguesia levou a que pelo menos desde
o início da construção do Castelo de Tomar surgisse a profissão/ofício do canteiro.
Tendo levado a que muitos do homens da freguesia passassem a trabalhar em profissões ligadas à
pedra, ao seu transporte e transformação (talvez ao princípio mais do lado da
Junta de Freguesia da Pedreira, pela proximidade e à posterior também passou-se
a ir buscar pedra a Além da Ribeira).
A toponímia da aldeia da Pedreira, “os buracos” agora existentes
nos locais onde existe pedra são evidências desta relação que se perde no tempo,
uma relação identitária que recua vários séculos.
No livro de Amorim Rosa História de Tomar I podemos confirmar de
que a pedra para a construção do Castelo viria de várias pedreiras do Concelho
nomeadamente da Pedreira.
Figura 1
- Extração do livro História de Tomar I de Amorim Rosa[i]
Na década de 90 o Rancho Folclórico "Os Canteiros" da
Pedreira[ii](RFCP)
realizou algumas recriações, nomeadamente: o trabalho do canteiro.
Figura 2 - Reconstituição do trabalho do canteiro pelo RFCP[iii]
Descrição da imagem anterior:
O elemento do meio (Hugo Canha) está sentado no coxo: peça de
madeira que para além de permitir servir de assento também era utilizado para o
transporte de algumas ferramentas tais como a maceta, escopros, picões ...
Na fotografia temos à esquerda o Tó (António Anjos), o Sr. Jacinto
(por trás), o Hugo Canha e o Sr. António Rodrigo (o canteiro). à direita,
muitos anos acompanhou o Rancho tocando as canas, deixando alguns ensinamentos
sobre o trabalho do Canteiro.
Também na mesma época foi feito um trabalho em texto do José
Carlos com o RFCP sobre o trabalho dos Canteiros que transcrevo de seguida:
O texto descreve o trabalho dos canteiros desde a extração da pedra até à sua aplicação final.
“Em primeiro lugar a pedra era extraída de locais denominados
cabocos ou barrocos, que são penedos isolados e informes.
Logo que eram localizados a primeira coisa a fazer era descobrir
os bancos de pedra, para tal utilizavam a pólvora contudo antes da pólvora
usavam o lume sobre a pedra de forma a conseguirem tirar terra e pedras soltas,
ficando somente as grandes bancadas, que depois seriam extraídas.
Os instrumentos que utilizavam para a sua extração eram vários,
sendo os principais as alavancas, os picões, as cunhas e as marretas.
O processo mais usual da extração consistia em abrir um roço ou
sulco na pedra, utilizando para isso o picão que é um instrumento de aço,
encabado, de duas hastes curtas e aguçadas nas pontas com o qual os canteiros
picavam a pedra abrindo assim uma fenda estreita, comprida e pouco profunda.
Deste modo o roço estava feito, de forma que procediam à colocação
de alhões que eram restos de ferraduras dos bois, junto com cunhas que eram
peças de ferro ou madeira com duas faces em ângulo bastante agudo para fazerem
aperto.
O aperto consistia em bater com as marretas em cima das cunhas até
a pedra partir.
Uma vez extraída a pedra, era necessário transportá-la para os
locais de trabalho, este transporte tanto podia ser feito por dois homens que
carregavam a pedra em cima de dois paus a que davam o nome de pranchas ou
maimeis, tendo que um deles agarrar os paus à frente e o outro à retaguarda, ou
então pela força da gravidade empurravam a pedra que rolando pelos grandes
declives tornava o transporte mais rápido e fácil de executar, no entanto tudo
dependia do local onde a pedra ia ser trabalhada.
Os locais onde trabalhavam a pedra eram simples barracas, aqui a
pedra era colocada em cima de 2 ou 4 pedras que tinha o nome de telheiros. Os
telheiros tinham a finalidade de serem o suporte, isto é, funcionavam como
cavaletes de pedra que ia ser trabalhada e por isso nunca eram trabalhados,
eles tinham sempre a largura e a altura desejada dos canteiros, tudo dependia
do tamanho da pedra que iam trabalhar.
Para trabalhar a pedra, os canteiros utilizavam vários
instrumentos que eram os seguintes: esquadros, compassos, macetas, ponteiros,
escopros, picões, picolas e bojardas que eram geralmente feitos de aço.
- Os esquadros e compassos serviam para medir e traçar a pedra
para assim lhe poderem dar a forma pretendida.
- As macetas usavam-nas para bater nos ponteiros.
- Os escopros, instrumentos cortantes serviam para desbastar a
pedra.
- Os picões para abrir os roços, isto é, pequenas fendas na pedra.
- As picolas tinham a finalidade de aperfeiçoar o trabalho,
entretanto foram substituídas pelas bojardas que fazem um aperfeiçoamento mais
completo.
Enquanto trabalhavam os canteiros sentavam-se num banco que tinha
o nome de coxo.
O coxo, para além de servir de assento, servia também para ser
transportada para os locais de sua aplicação. Geralmente o transporte era feito
por carroças ou galeras puxadas pelos muares ou carros de bois.
A maioria dos trabalhos feitos pelos canteiros eram para a
construção civil, tais como umbreiras, peitoris, soleiras e para além de outros
faziam também trabalhos de ornamentação de maior ou menor envergadura consoante
o local para onde se destinavam.
A título de curiosidade, estes homens artesãos como eram,
dedicavam-se também a fazer trabalhos de adornos para salas e cozinhas, tais
como: candeeiros, almofarizes, fruteiras, pratos, pias, enfim um não mais
acabar de trabalhos ainda hoje de uma utilidade sem par, que nem o decorrer dos
tempos deu origem ao seu desaparecimento."
Figura 3
- Instrumentos de canteiro - Internet[iv]
Na ladeira das Taliscas podemos observar algumas marcas do corte feito
na pedra a picão [v].
No final da ladeira das taliscas encontramos também uma buraca e
um telheiro reconstruído onde muito provavelmente alguns dos Canteiros da
Pedreira utilizaram para se abrigar.
Figura 4
- Buraca e telheiro na Ladeira das Taliscas . CH2020
A memória dos canteiros da Pedreira, outrora representada por
figuras como António Carrão, permanece ativa na contemporaneidade através da
Oficina de Cantaria dos irmãos Luís e Rui Rodrigo.
Figura 5 - António
Carrão[vi]
Figura 6 - Esculturas de Luís Rodrigo[vii]
Na Pedreira encontramos a arte da cantaria em algumas habitações:
Figura 7
- Trabalho de cantaria na Pedreira . CH2023
Do
lado de Além da Ribeira:
A pedra era extraída do Murtinhal e do Barreirão (extração junto à
ribeira do Fetal até ao lagar do Pereiro).
Transportada em 2 (duas) carroças a pedra era aparelhada no
estacionamento junto ao agora café do Prado.
Figura 8
- Local de extração de pedra no Murtinhal - CH2014
Figura 9 . Local de extração de pedra no Barreirão - CH2014
Do Barreirão saia um carro puxado por 4 bois, sendo descarregada
junto à antiga casa que servia de escola (cruzamento da rua dos Fetais e da rua
da Igreja), depois iam buscar outra meia carrada e assim desta forma ficava
completa a carga.
A filha do balseiro (Cecília que mora na zona de Lisboa) tirou de
lá pedra com os bois e o seu avô (pai do balseiro) que era cego fez o mesmo,
através da apalpação conseguia saber quando a carrada estava completa.
Nesta zona só os acabamentos da pedra que era para aplicar na zona
era aparelhada no local, caso contrário ia para o Prado
Cerca de 1935 já pessoal da Pedreira tirava daqui pedra, vindo
pela zona das Lapas, atravessando o rio Nabão, onde hoje a ribeira do Fetal entra
no rio. Mais tarde o "xico cigano" do Fetal de Baixo (avô da Cristina
Cacho) e o Luís Perdigoto que mais tarde morou na Póvoa é que passaram a
controlar as pedreiras.
Chegou a haver também uma barraquita de acabamentos e também
extração de pedra na rua do Carqueijal (no vale – Fetal de Baixo).
Houve mais dois locais de extração, uma perto da rua da Bela Vista
(traseiras da habitação da Cabeleireira - D. Custódia - Vale Venteiro), a outra
depois na rua do Vale das Aroeiras a caminho da Igreja e que chegava à ribeira do
Fetal.
Destas pedreiras saiu pedra para fazer muitas levadas existentes
na zona, para a Escola do Fetal, para a Barragem do Castelo de Bode e para o
edifício da Caixa Geral de Depósitos onde agora funciona a Divisão da Educação
e Ação Social da Câmara Municipal de Tomar.
Figura 10
- Levada de água junto aos moinhos da Fervença - CH2014
Figura 11 - Caixa Geral de Depósitos de Tomar[viii]
Cerca do ano de 1960 a exploração parou porque passou a ser mais
rentável a pedra vir da zona de Fátima.
Informação sobre Além da Ribeira foi recolhida e cedida por
Hilário Guia.
[i] Rosa, A. (1965). História de Tomar I. Tomar: Gabinete de Estudos Tomarenses.
[ii] O Rancho Folclórico
"Os Canteiros" da Pedreira
(https://www.facebook.com/ranchofolclorico.pedreira) carateriza-se por ser uma
associação com o intuito de divulgar as tradições, danças, gastronomia e o
trajar do período 1890 a 1920.
[iii]
https://www.facebook.com/photo/?fbid=302399303185578&set=pb.100002465321634.-2207520000
[iv]
https://inventariobensculturais.cascais.pt/ficha.aspx?id=82&ns=206000&Lang=PO&IPR=-1
[v] (PR1 "Vale do
Nabão" Ficha Técnica: Execução artística: Hugo Brás Colaboração: Domingos
Patacho jf-pedreira).
[vi]
https://tomarnarede.pt/destaque/morreu-um-dos-ultimos-canteiros/#google_vignette
[vii]
https://convergenciasarte.wordpress.com/sitios-da-pedra-i-sitios-e-gentes/
[viii]https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Vista_aproximada_para_Edif%C3%ADcio_da_Caixa_Geral_de_Dep%C3%B3sitos,_CGD,_de_Tomar.jpg

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