Enquadramento Histórico:
As ferrarias na região de Além da
Ribeira e Pedreira surgiram ainda antes de 1504: "Muito antes de
incorporada a Comenda do Prado no Convento, (1536), aquando da Visitação
de 1504, se encontrou ali erigido, por ordem Régia, um Engenho de Balas, junto
dos Moinhos, o qual andava com água da levada deles, sem que se satisfizesse ao
Convento os terrenos do dito novo Engenho[i].”
Por esta altura, Portugal vivia o
seu período áureo dos Descobrimentos, destacando-se a Viagem de Vasco da Gama à
Índia em 1498 e a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil em 1500, isto
durante o reinado de D. Manuel I, sendo o fabrico de armamento necessário para
as conquistas e defesa dos novos territórios.
Os problemas de sucessão criados
pelo desaparecimento de D. Sebastião, levam a que em 1581, nas Cortes de Tomar
seja declarado Filipe II rei de Espanha, Filipe I rei de Portugal.
"Em 1618 foi criado o
Regimento das Ferrarias de Tomar (S. Lourenço e Prado) e Ribeira de Alge,
Maxuca, que no tempo de Francisco Dafour (1651-1680) chegaram a ter grande
importância, fundindo não só munições, mas também peças de artilharia dos
calibres 4’’ e 8’’ (respetivamente 10,16cm e 20,32 cm)[ii]."
“A revolução de 1 de dezembro de
1640 e a restauração da monarquia portuguesa levariam forçosamente à guerra com
a Espanha. Seguiu-se um período de atividade febril para preparar o país para
esta contingência. Ainda em 1640 foram criados o Conselho de Guerra e a
Tenência-Geral de Artilharia; esta tinha por funções o alistamento, instrução e
jurisdição sobre os “artilheiros de nómina” destinados ao serviço nas praças,
fortalezas e navios; e a aquisição, conservação e distribuição de todo o
material de guerra[iii].”
A necessidade de produção de
balas, canhões e armamento foi aumentando e diminuindo de acordo com os
diferentes conflitos que surgiram, entre eles as invasões francesas (1807, 1809
e 1810) onde a região de Tomar também foi envolvida, levando a que apenas em
1836 Henrique de Roure Pietra fundasse a Fábrica de Papel do Prado, apesar de o
Marquês de Pombal ter autorizado a mesma por alvará em 1772, terminando desta
forma a existência de Ferrarias na freguesia, em Tomar e em Figueiró
dos Vinhos[iv].
Amorim Rosa no livro A História
de Tomar II também refere:
“E quando em 1812 Francisco de Roure
e Luis de Sousa Melo e Manga ali desejarem fazer uma Fábrica de Papel, dizem no
seu relatório: «onde em tempos remotos houve uma Fundição de Ferro por conta do
Estado, da qual hoje só existem uns restos de paredes, a maior parte do coberto
de figueiras e mato em total abandono»
“As arenitos do veio
Aveiro-Tomar, onde «mergulham» nos terrenos sedimentares mais modernos, dão
lugar àquele saibro vermelho, que os nossos pedreiros usam na argamassa em vez
da areia, costume tão peculiar em Tomar, e que ricas em ferro, alimentaram as
Ferrarias do Prado e de S.Lourenço[v].”
As grandes ferrarias dependiam
dos recursos naturais locais como a água, a madeira e o minério (este último também
vinha de outras zonas do país , o nosso provavelmente da Ribeira Velha de
Figueiró dos Vinhos). A corrente acionava rodas hidráulicas que moviam os
gigantescos maços (martelos mecânicos) e os foles dos fornos[vi].
Na freguesia tivemos então:
1. Ferrarias do Prado
Fundadas no século XVI,
localizadas junto ao rio Nabão e a uma zona de área florestal considerável.
Terminaram a sua atividade no início do Séc. XIX.
Coordenadas Ferrarias do Prado:
39.64299865792086, -8.400376616871773
Figura 1 - Fábrica do
Papel do Prado - Inícios Séc. XX[vii]?
2. Ferrarias do Sobreirinho
Não se sabe de quando é a
construção deste edifício que se localiza junto ao cruzamento entre o
Sobreirinho e Lapas, onde dizem ter-se fabricado granadas e morou a Rainha
(Maria I Reinou de 1777 a 1816?*) (Guia, 2014). A associação popular poderá
prender-se com o facto de o edifício ser propriedade da Coroa ou estar ligado
às inspeções que a monarca ordenou na época[viii].
Coordenadas Ferrarias do
Sobreirinho: 39.65517963740395, -8.407958413886004
Figura 2 - Ferrarias
Sobreirinho – CH – set2014
[i]
Rosa,
A. (1967). Anais de Tomar 1454-1580. Tomar: Gabinete dos Estudos Tomarenses.
[ii]
Rosa, A. (1965). A História de Tomar II. Tomar:
Gabinete de Estudos Tomarenses.
[iv]
Barbosa,
R. F., & Genin, S. M. (2019). As Fábricas do Vale do Nabão: Estudo
Comparativos e sua relação com a água. 3º Congresso Internacional de História
da Construção Luso.Brasileira.
[v] Rosa, A. (1965). A História de Tomar II. Tomar:
Gabinete de Estudos Tomarenses (pág. 9)
[vi] https://www.researchgate.net/publication/278031926_As_Ferrarias_del_Rey_Fabrica_da_Polvora_de_Barcarena_Resultados_da_intervencao_arqueologica_realizada_em_2009
[vii]
https://mediotejo.net/tomar-fabrica-de-papel-do-prado-ex-trabalhadores-pedem-para-nao-serem-esquecidos/
[viii]
José Bonifácio de Andrade e Silva, Professor de Metalurgia na Universidade de
Coimbra, nas viagens científicas pela Europa que fizera a mando da Rainha D.
Maria I, tinha adquirido vastos conhecimentos e experiência nas áreas das
Ciências e da Indústria metalúrgica, bem como da Administração Pública,
reunindo condições para o cargo, nomeava-o Intendente Geral das Minas e Metais
do Reino[viii].
