quinta-feira, 30 de julho de 2026

As Ferrarias da União de Freguesia de Além da Ribeira e Pedreira


Enquadramento Histórico:

As ferrarias na região de Além da Ribeira e Pedreira surgiram ainda antes de 1504: "Muito antes de incorporada a Comenda do Prado no Convento, (1536), aquando da Visitação de 1504, se encontrou ali erigido, por ordem Régia, um Engenho de Balas, junto dos Moinhos, o qual andava com água da levada deles, sem que se satisfizesse ao Convento os terrenos do dito novo Engenho[i].” 

Por esta altura, Portugal vivia o seu período áureo dos Descobrimentos, destacando-se a Viagem de Vasco da Gama à Índia em 1498 e a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil em 1500, isto durante o reinado de D. Manuel I, sendo o fabrico de armamento necessário para as conquistas e defesa dos novos territórios.

Os problemas de sucessão criados pelo desaparecimento de D. Sebastião, levam a que em 1581, nas Cortes de Tomar seja declarado Filipe II rei de Espanha, Filipe I rei de Portugal.

 "Em 1618 foi criado o Regimento das Ferrarias de Tomar (S. Lourenço e Prado) e Ribeira de Alge, Maxuca, que no tempo de Francisco Dafour (1651-1680) chegaram a ter grande importância, fundindo não só munições, mas também peças de artilharia dos calibres 4’’ e 8’’ (respetivamente 10,16cm e 20,32 cm)[ii]."

“A revolução de 1 de dezembro de 1640 e a restauração da monarquia portuguesa levariam forçosamente à guerra com a Espanha. Seguiu-se um período de atividade febril para preparar o país para esta contingência. Ainda em 1640 foram criados o Conselho de Guerra e a Tenência-Geral de Artilharia; esta tinha por funções o alistamento, instrução e jurisdição sobre os “artilheiros de nómina” destinados ao serviço nas praças, fortalezas e navios; e a aquisição, conservação e distribuição de todo o material de guerra[iii].”

A necessidade de produção de balas, canhões e armamento foi aumentando e diminuindo de acordo com os diferentes conflitos que surgiram, entre eles as invasões francesas (1807, 1809 e 1810) onde a região de Tomar também foi envolvida, levando a que apenas em 1836 Henrique de Roure Pietra fundasse a Fábrica de Papel do Prado, apesar de o Marquês de Pombal ter autorizado a mesma por alvará em 1772, terminando desta forma a existência de Ferrarias na freguesia, em Tomar e em Figueiró dos Vinhos[iv].

Amorim Rosa no livro A História de Tomar II também refere:

“E quando em 1812 Francisco de Roure e Luis de Sousa Melo e Manga ali desejarem fazer uma Fábrica de Papel, dizem no seu relatório: «onde em tempos remotos houve uma Fundição de Ferro por conta do Estado, da qual hoje só existem uns restos de paredes, a maior parte do coberto de figueiras e mato em total abandono»  

“As arenitos do veio Aveiro-Tomar, onde «mergulham» nos terrenos sedimentares mais modernos, dão lugar àquele saibro vermelho, que os nossos pedreiros usam na argamassa em vez da areia, costume tão peculiar em Tomar, e que ricas em ferro, alimentaram as Ferrarias do Prado e de S.Lourenço[v].”

As grandes ferrarias dependiam dos recursos naturais locais como a água, a madeira e o minério (este último também vinha de outras zonas do país , o nosso provavelmente da Ribeira Velha de Figueiró dos Vinhos). A corrente acionava rodas hidráulicas que moviam os gigantescos maços (martelos mecânicos) e os foles dos fornos[vi].

 

Na freguesia tivemos então:

1. Ferrarias do Prado 

Fundadas no século XVI, localizadas junto ao rio Nabão e a uma zona de área florestal considerável.  Terminaram a sua atividade no início do Séc. XIX.

Coordenadas Ferrarias do Prado: 39.64299865792086, -8.400376616871773

                                            

Figura 1 - Fábrica do Papel do Prado - Inícios Séc. XX[vii]?

2. Ferrarias do Sobreirinho

Não se sabe de quando é a construção deste edifício que se localiza junto ao cruzamento entre o Sobreirinho e Lapas, onde dizem ter-se fabricado granadas e morou a Rainha (Maria I Reinou de 1777 a 1816?*) (Guia, 2014). A associação popular poderá prender-se com o facto de o edifício ser propriedade da Coroa ou estar ligado às inspeções que a monarca ordenou na época[viii].

Coordenadas Ferrarias do Sobreirinho: 39.65517963740395, -8.407958413886004

Figura 2 - Ferrarias Sobreirinho – CH – set2014

 



[i] Rosa, A. (1967). Anais de Tomar 1454-1580. Tomar: Gabinete dos Estudos Tomarenses.

 

[ii] Rosa, A. (1965). A História de Tomar II. Tomar: Gabinete de Estudos Tomarenses.

 

[iv] Barbosa, R. F., & Genin, S. M. (2019). As Fábricas do Vale do Nabão: Estudo Comparativos e sua relação com a água. 3º Congresso Internacional de História da Construção Luso.Brasileira.

 

[v] Rosa, A. (1965). A História de Tomar II. Tomar: Gabinete de Estudos Tomarenses (pág. 9)

[vii] https://mediotejo.net/tomar-fabrica-de-papel-do-prado-ex-trabalhadores-pedem-para-nao-serem-esquecidos/

 

[viii] José Bonifácio de Andrade e Silva, Professor de Metalurgia na Universidade de Coimbra, nas viagens científicas pela Europa que fizera a mando da Rainha D. Maria I, tinha adquirido vastos conhecimentos e experiência nas áreas das Ciências e da Indústria metalúrgica, bem como da Administração Pública, reunindo condições para o cargo, nomeava-o Intendente Geral das Minas e Metais do Reino[viii].

 

          


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