domingo, 12 de abril de 2026

Lagares de Azeite da União de Freguesias de Além da Ribeira e Pedreira


A oliveira faz parte da paisagem agrícola da região de Tomar e claro da nossa freguesia pelo menos desde o Séc. XVI, prova disso é “Ao redor deste Casal, por compras e trocas, adquiriu D. António outras casas, terras e olivais, em que juntou e fez esta Granja, e a mandou cercar de pedra em redor, salvo da banda que entesta com o rio (Rosa, 1965).” a aquisição da Quinta da Granja pelo Frei António.

Outro facto é de que o fabrico do azeite é regulamentado na região desde 1162 no 1º Foral dado à Vila de Tomar por D. Gualdim Pais, 4º Mestre do Templo: em nenhumas azenhas non dedes mais ca de XIII partes uma, sem ofreção (Guimarães, 1979)

Segue dois exemplares de oliveiras antiquíssimas:

Figura 1 - Oliveira na Enxofreira – 2013 - 39.683510048777784, -8.417343748916496

Figura 2 - Oliveira nas Casas Velhas – 2013 - 39.69271982101227, -8.412507726075082

A nossa freguesia é atravessada pelo rio Nabão e outros cursos de água, tais como a Ribeira da Fervença, o Ribeiro de Paio Nunes e é junto destes que surgem os primeiros??? lagares de azeite.

No livro “A Oliveira e o Azeite na Região de Tomar – usos e costumes” de Manuel da Silva Guimarães encontramos dados dos lagares existentes no Concelho de Tomar em 1971:

Além da Ribeira (pertencia à freguesia de Casais) – Em Pedregulho (Póvoa) de António da Silva, na Enxofreira (Pereiro) de Francisco Mendes e em Casal de Baixo de Manuel Pereira.

Pedreira – Em S. Simão de João Azevedo e outros, na Pedreira haviam dois, um de Aparício Jacinto Cardoso e outros e outro de António Pereira da Costa, na Estrada do Prado aparece referência a um lagar que pertencia a António Gomes Madureira, na Arrascada aparecem dois, um de Manuel da Fonseca Balas que é o que se situava? junto à Quinta da Granja e outro pertencia a António Jerónimo.

Funcionamento dos lagares tradicionais:

O aparelho principal é o moinho ou vasa (galgas, mós, rodas moedoras, moinho de martelo, moinho espanhol e pedras, são designações idênticas comuns nas diferentes freguesias), constituído por um tanque redondo, com as paredes interiores de pedra ou chapa levemente inclinadas para o centro, onde recebe a azeitona que as mós de pedra vão esmagando mais ou menos lentamente. Ao centro, um eixo de ferro sustenta os cabos das mós e assegura a ligação com o veio central (peão) que liga todo o sistema à tração animal ou motora que aciona as pedras e lhe permite o esmagamento.

Os moinhos poderão ser movidos pela força animal ou de sangue, de água ou de fogo (motor). Os de água deixaram de funcionar à mais tempo, sendo agora os de fogo os existentes.

Dos 8 lagares existentes do lado de Além da Ribeira e dos 4 lagares do lado da Pedreira apenas o lagar dos Vales está a trabalhar, todos os restantes estão em avançado estado de ruína e outros a sua existência foi substituída por casas de habitação restam ainda as memórias de quem ainda viveu nesses tempos.

1 - Lagares do lado de Além da Ribeira

1.1    - Lagar do Casal Velho e Moinho

O lagar localiza-se junto à ribeira da Fervença no Casal Velho ou Casal de Baixo, movido a água onde o rodízio está no cabouco e o piso de cima fica a um nível ligeiramente superior ao do leito da ribeira. O seu dono em 1971 era o Sr. Manuel Pereira - Pianã. Em estado avançado de ruína, pode-se ainda observar as tulhas em cimento, as duas mós de pedra dentro de tanque de folha em forma de alguidar para triturar a azeitona, duas prensas hidráulicas para enceirar a massa da azeitona (no chão em 2013 ainda se encontravam ceras fig. 7)…

Coordenadas 39.66977364738493, -8.394874984707387

 

Figura 3 - Lagar Casal Velho - Nuno Ferreira Ago13

    Figura 4 - Lagar Casal Velho - Tulha - Nuno Ferreira Ago13

Figura 5 - Lagar Casal Velho - Moinho - Nuno Ferreira Ago13

 Figura 6 - Lagar Casal Velho – Prensas Hidráulicas - Nuno Ferreira Jun24


                                             Figura 7 - Lagar Casal Velho - Cera - Nuno Ferreira Ago13

1.2 - Lagar e azenha do Curto

Coordenadas: N 39˚39.298’ W 008˚24.008’

Lagar e azenha (a roda motriz encontrava-se em posição vertical, ainda há o vestígio da água a cair do alto – fig.9) de pelo menos de 1660, movido a água, localiza-se junto à ribeira da Fervença, talvez inicialmente apenas azenha para produção de farinha, mas também funcionou como lagar de azeite.

Este lagar era de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 11).

Coordenadas: 39.678744758021644, -8.389194066001734

Figura 8 - Retirado do livro "Coisas da Minha Terra"


Figura 9 - Lagar e Azenha do Curto - Nuno Ferreira12

Figura 10 - Lagar e Azenha do Curto - local da roda - Cristina Henriques Dez14

           Figura 11 - Lagar do Curto - As mós e o peso - Cristina Henriques Dez14

1.3 - Lagar da Fervença

Lagar movido a água em ruínas junto à ponte e ribeira da Fervença, foi do António da Silva da Póvoa, trabalhou até 1942.

Coordenadas: 39.66496917011426, -8.400242084961551

                                   Figura 12 - Lagar da Fervença - Cristina Henriques Dez14

1.4 - Lagar do Pereiro (Enxofreira)

Lagar no Beco do Lagar no Pereiro, inicialmente movido a bois e depois a fogo. Começou antes de 1900,  foi do bisavô do Carlos (Lobo) depois passou para o avô e mais tarde para um tio (os Mendes), só depois passou para cooperativa, esteve uns anos parado e depois reabriu em nome do atual dono e do pai (2014) durante mais um ano ou dois, tendo fechado por completo em 2000/2001.

Neste lagar ainda se visualiza as tulhas de cimento (fig. 15) que iam guardando o fruto que será esmagado pelas galgas. O número de tulhas varia consoante a capacidade do lagar. Por cada prensa ou vara há normalmente dez tulhas em cada lagar.

Os capachos que se encontram por cima das tulhas eram fabricados artesanalmente (na Escola Primária da Póvoa existia um à frente da porta para limparmos os sapatos) e, eram nestes capachos que cheios de massa levavam com água quente sendo depois empilhados sobre o estrado da prensa, a que se dá o nome de algués, saindo daqui o bagaço (fig. 14).

Coordenadas: 39.68197019189655, -8.41436123318038

Figura 13 - Lagar do Pereiro - Cristina Henriques Nov14

Figura 14 - Lagar do Pereiro - Cristina Henriques Nov14

Figura 15 - Lagar do Pereiro - Tulhas e Capachos - Cristina Henriques Nov14

1.5 - Lagar da Póvoa I (Pedregulho)

Lagar junto à estrada Principal da Póvoa (antigamente designado Pedregulho), perto da Casa do Zé Fagulha, movido a fogo, onde os meus pais faziam o azeite. Iniciou em 1943 e fechou pelos anos 90.

Coordenadas: 39.66491342217262, -8.40443169540719


                                        Figura 16 - Lagar da Póvoa - Cristina Henriques Set13

 

Figura 17 - Lagar da Póvoa - Cristina Henriques Set13 

1.6 - Lagar Velho da Póvoa II

Lagar que se no Canto do Lagar Velho na Póvoa, provavelmente no início movido a bois?, mais tarde movido a fogo?, está em ruínas, pela área que ocupa tinha uma dimensão considerável para a época.

Este lagar era também de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 19).

Coordenadas: 39.65558275193413, -8.40507274337684

 

Figura 18 - Lagar Velho Póvoa - Cristina Henriques Nov14

 

Figura 19 - Lagar Velho da Póvoa - Cristina Henriques Nov14

1.7 - Lagar da Póvoa III

Lagar que já não existe, situava-se onde é agora a Casa Mortuária da Póvoa.

Coordenadas: 39.65823263549142, -8.404256010735796

1.8 - Lagar dos Vales

Lagar de Edmundo de Freitas, localiza-se na Rua Principal nos Vales, lagar que foi modernizado. Aqui a moagem já é feita através de martelos de aço inoxidável em substituição das antigas mós de pedra.

Coordenadas: 39.686089970518196, -8.40643029077127 

Figura 20 - Lagar dos Vales - Nuno Ferreira Nov12

Figura 21 - Lagar dos Vales - Nuno Ferreira Nov12


2      - Lagares do lado da Pedreira

 

2.1     - Lagar de António Aparício Cardoso (genro do José Neto) e outros - Pedreira

O primeiro lagar  que se conhece da Pedreira (fonte: Adelino Honrado) era de José Neto e depois do seu genro António Aparício Cardoso na rua do Canto, movido com motores a gasóleo, entretanto como este era pequeno passou a funcionar mais abaixo, com dois pisos, junto à Rua Carlos Augusto Coelho quase em frente ao lagar de António Pereira da Costa, que entretanto deixou de ser movido a gasóleo para passar a ser a eletricidade. Ambos os lagares foram substituídos por habitações. No entanto, ainda é possível distinguir alguns vestígios do primeiro lagar.  A localização do segundo lagar é facilitada com o facto de o caminho a seu lado chamar-se “Az do Lagar”.

Coordenadas do primeiro: 39.640839748432875, -8.40816970321841

Coordenadas do segundo: 39.64043366894921, -8.407194370711881

Figura 22 - 1º Lagar de José Neto - Fernando Gonçalves Abr26

2.2     - Lagar de António Pereira da Costa - Pedreira

Lagar movido com animais, situava-se junto à Rua Carlos Augusto Coelho quase em frente ao lagar de António Aparício Cardoso (genro do José Neto) e outros (fonte: Adelino Honrado). O lagar também foi substituído por habitação.

Coordenadas:  39.640559878260966, -8.407489763241392

2.3     - Lagar de Manuel da Fonseca Balas* – Quinta da Granja

Lagar movido a água, situa-se em frente à Quinta da Granja do Séc. XVI, o ribeiro de Paio Nunes era a força motriz deste lagar entrando por baixo e acionando o rodízio, mas pela foto do moinho/galgas parece ter sido também movido a animais? (quando o caudal da ribeira era pouco?), em 1990 já estava abandonado (Salema, 1993).

Este lagar era também de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 25). No chão em 1997 ainda se podiam distinguir as tarefas ou fontes que recebiam a água ruça da mistura com o azeite (fig. 26).

A minha avó que hoje faz 94 anos (12 de abril de 2026), levantava-se de madrugada mais a irmã Lídia para irem apanhar azeitona na Quinta da Granja e lá ficavam durante a semana.

Coordenadas: 39.628056262255996, -8.401985520761649

*Existem dúvidas se este senhor era o dono do lagar da Quinta da Granja, pois aparece referenciado (Guimarães, 1979)  na Arrascada e não na Estrada do Prado mas...

Figura 23 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997

Figura 24 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997

Figura 25 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997


                                         Figura 26 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997


2.4     - Lagar de João Azevedo e outros – S. Simão

Lagar referenciado no livro A Oliveira e o Azeite na Região de Tomar – Usos e Costumes de Manuel da Silva Guimarães (Pág. 139) ), mas que não sei qual a sua localização.


 

A existência de todos estes lagares permite concluir que grande parte da população do início Séc. XX ainda trabalhava nos campos, tirando daí o seu sustento, algo que se foi perdendo há cerca de 40 anos, prova disso é o facto de existir na nossa freguesia apenas um lagar em funcionamento.


 Curiosidades:

 

Doenças tratadas com azeite:

Além da Ribeira (Casais): Queimaduras, dores de estômago, constipações e bicha solitária.

Pedreira: Zipelas, queimaduras, quebrantos.

 

No Fetal de Baixo as constipações curam-se com azeite, água quente e mel.

 

Doenças curáveis com chá de folha de oliveira:

Além da Ribeira (Casais): Dor de barriga, coração, dor de dentes, dor de estômago.

Pedreira: Coração.

 

Cancioneiro da Apanha da Azeitona

 

Fetal de Baixo

Namorados da Azeitona

São como os da cotovia

Acabada é a azeitona

Fica-te com Deus Maria

 

Menina do lenço branco

Com a sua nódoa de azeite

Já não há rapaz nenhum

Que a menina não enjeite

 

Digamos adeus à terra

Também ao nosso patrão

Nós vamos para a nossa casa

Levando-a no coração

 

Fervença

Azeitona verde é mimo

Eu também já fui mimosa

Como queres que eu te ame

Se eu de ti estou tão queixosa

 

Pedreira

A azeitona já está preta

Já se pode armar aos tordos

Diz-me lá ó cara linda

Como vais de amores novos

 

Corri a terra à volta

Oliveiras, olivais

Para ver se esquecia

Cada vez me lembro mais

 

Oliveira pequenina

Que azeitona pode dar

Um baguinho até dois

Já é muito que apanhar

 

 

Casal das Várzeas, Fervença e Pedreira

Azeitona miudinha

Apanhada bago a bago

Estas meninas de agora

São piores do que o diabo

 

No pé duma oliveira

C’uma grande bebedeira

Deu-me o vento e catrapaz

Fui de ventas à torneira

 

Pedreira . Porto de Cavaleiros

Corri atrás de ti

Oliveiras, olivais

Para ver se te apanhava

Cada vez foges mais

 

Ó raparigas, ó moças

Ó minhas leais amigas

Está-se a acabar o tempo

De ouvir as vossas cantigas

 

Acabámos, acabámos

Mas não de morrer agora

Acabámos a azeitona

Para nos irmos embora

 

Adivinha 

Do tamanho de uma abelha, Enche a casa até à telha

R: lâmpada de azeite

 

 

O levantamento desta informação tal como toda a que está no meu blogue deve-se a valiosos contributos de Hilário Guia, mas este artigo também teve informação prontamente disponibilizada por parte de um grande amigo  o Fernando Gonçalves que foi logo procurar saber informação dos lagares existentes na Pedreira.

 

Fontes bibliográficas:

 

Guimarães, M. d. (1979). A Oliveira e o Azeite na Região de Tomar - Usos e Costumes. Tomar: Câmara Municipal de Tomar.

 Salema, C. V. (1993). Coisas e Loisas de Tomar. Tomar: Empresa Editora Cidade de Tomar.

 

Rosa, A. (1965). História de Tomar I. Tomar: Gabinete de Estudos Tomarenses.

 

Obrigada marido e pimpolhos por vos obrigar a virem comigo. Bjs