A oliveira faz parte da paisagem
agrícola da região de Tomar e claro da nossa freguesia pelo menos desde o Séc.
XVI, prova disso é “Ao redor deste Casal, por compras e trocas, adquiriu D. António
outras casas, terras e olivais, em que juntou e fez esta Granja, e a mandou
cercar de pedra em redor, salvo da banda que entesta com o rio
Outro facto é de que o fabrico do
azeite é regulamentado na região desde 1162 no 1º Foral dado à Vila de Tomar
por D. Gualdim Pais, 4º Mestre do Templo: em
nenhumas azenhas non dedes mais ca de XIII partes uma, sem ofreção
Segue dois exemplares de
oliveiras antiquíssimas:
Figura 1 - Oliveira na Enxofreira – 2013
- 39.683510048777784, -8.417343748916496
Figura 2 - Oliveira nas Casas Velhas – 2013 - 39.69271982101227,
-8.412507726075082
A nossa freguesia é atravessada
pelo rio Nabão e outros cursos de água, tais como a Ribeira da Fervença, o
Ribeiro de Paio Nunes e é junto destes que surgem os primeiros??? lagares de
azeite.
No livro “A Oliveira e o Azeite
na Região de Tomar – usos e costumes” de Manuel da Silva Guimarães encontramos
dados dos lagares existentes no Concelho de Tomar em 1971:
Além da Ribeira (pertencia à
freguesia de Casais) – Em Pedregulho (Póvoa) de António da Silva, na Enxofreira
(Pereiro) de Francisco Mendes e em Casal de Baixo de Manuel Pereira.
Pedreira – Em S. Simão de João
Azevedo e outros, na Pedreira haviam dois, um de Aparício Jacinto Cardoso e
outros e outro de António Pereira da Costa, na Estrada do Prado aparece
referência a um lagar que pertencia a António Gomes Madureira, na Arrascada
aparecem dois, um de Manuel da Fonseca Balas que é o que se situava? junto à
Quinta da Granja e outro pertencia a António Jerónimo.
Funcionamento dos lagares tradicionais:
O aparelho principal é o moinho
ou vasa (galgas, mós, rodas moedoras, moinho de martelo, moinho espanhol e
pedras, são designações idênticas comuns nas diferentes freguesias),
constituído por um tanque redondo, com as paredes interiores de pedra ou chapa levemente
inclinadas para o centro, onde recebe a azeitona que as mós de pedra vão
esmagando mais ou menos lentamente. Ao centro, um eixo de ferro sustenta os
cabos das mós e assegura a ligação com o veio central (peão) que liga todo o
sistema à tração animal ou motora que aciona as pedras e lhe permite o
esmagamento.
Os moinhos poderão ser movidos pela
força animal ou de sangue, de água ou de fogo (motor). Os de água deixaram de
funcionar à mais tempo, sendo agora os de fogo os existentes.
Dos 8 lagares existentes do lado de Além da Ribeira e dos 4 lagares do lado da Pedreira apenas o lagar dos Vales está a trabalhar, todos os restantes estão em avançado estado de ruína e outros a sua existência foi substituída por casas de habitação restam ainda as memórias de quem ainda viveu nesses tempos.
1 - Lagares do
lado de Além da Ribeira
1.1 - Lagar do
Casal Velho e Moinho
O lagar localiza-se junto à ribeira da Fervença no Casal Velho ou Casal de Baixo, movido a água onde o rodízio está no cabouco e o piso de cima fica a um nível ligeiramente superior ao do leito da ribeira. O seu dono em 1971 era o Sr. Manuel Pereira - Pianã. Em estado avançado de ruína, pode-se ainda observar as tulhas em cimento, as duas mós de pedra dentro de tanque de folha em forma de alguidar para triturar a azeitona, duas prensas hidráulicas para enceirar a massa da azeitona (no chão em 2013 ainda se encontravam ceras fig. 7)…
Coordenadas 39.66977364738493, -8.394874984707387
Figura
3 - Lagar
Casal Velho - Nuno Ferreira Ago13
Figura 4 - Lagar
Casal Velho - Tulha - Nuno Ferreira Ago13
Figura
5 - Lagar
Casal Velho - Moinho - Nuno Ferreira Ago13
Figura 6 - Lagar
Casal Velho – Prensas Hidráulicas - Nuno Ferreira Jun24
1.2 - Lagar e azenha do Curto
Coordenadas: N 39˚39.298’ W 008˚24.008’
Lagar e
azenha (a roda motriz encontrava-se em posição vertical, ainda há o vestígio da
água a cair do alto – fig.9) de pelo menos de 1660, movido a água, localiza-se
junto à ribeira da Fervença, talvez inicialmente apenas azenha para produção
de farinha, mas também funcionou como lagar de azeite.
Este lagar
era de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 11).
Coordenadas: 39.678744758021644,
-8.389194066001734
Figura 8 - Retirado do livro
"Coisas da Minha Terra"
Figura 9 - Lagar e Azenha do Curto -
Nuno Ferreira12
Figura 10 - Lagar e Azenha do Curto -
local da roda - Cristina Henriques Dez14
Figura 11 - Lagar do Curto - As mós e o peso - Cristina
Henriques Dez14
1.3 - Lagar da Fervença
Lagar movido a água em ruínas junto à
ponte e ribeira da Fervença, foi do António da Silva da Póvoa, trabalhou até
1942.
Coordenadas: 39.66496917011426,
-8.400242084961551
Figura 12 - Lagar da Fervença -
Cristina Henriques Dez14
1.4 - Lagar do Pereiro (Enxofreira)
Lagar no Beco
do Lagar no Pereiro, inicialmente movido a bois e depois a fogo. Começou antes
de 1900, foi do bisavô do Carlos (Lobo)
depois passou para o avô e mais tarde para um tio (os Mendes), só depois passou
para cooperativa, esteve uns anos parado e depois reabriu em nome do atual dono
e do pai (2014) durante mais um ano ou dois, tendo fechado por completo em
2000/2001.
Neste
lagar ainda se visualiza as tulhas de cimento (fig. 15) que iam guardando o
fruto que será esmagado pelas galgas. O número de tulhas varia consoante a
capacidade do lagar. Por cada prensa ou vara há normalmente dez tulhas em cada
lagar.
Os
capachos que se encontram por cima das tulhas eram fabricados artesanalmente
(na Escola Primária da Póvoa existia um à frente da porta para limparmos os
sapatos) e, eram nestes capachos que cheios de massa levavam com água quente
sendo depois empilhados sobre o estrado da prensa, a que se dá o nome de algués,
saindo daqui o bagaço (fig. 14).
Coordenadas: 39.68197019189655,
-8.41436123318038
Figura 13 - Lagar do Pereiro - Cristina
Henriques Nov14
Figura 14 - Lagar do Pereiro - Cristina
Henriques Nov14
Figura 15 - Lagar do Pereiro - Tulhas e Capachos - Cristina Henriques Nov14
1.5 - Lagar da Póvoa I (Pedregulho)
Lagar
junto à estrada Principal da Póvoa (antigamente designado Pedregulho), perto da
Casa do Zé Fagulha, movido a fogo, onde os meus pais faziam o azeite. Iniciou
em 1943 e fechou pelos anos 90.
Coordenadas:
39.66491342217262, -8.40443169540719
Figura 16 - Lagar da Póvoa - Cristina
Henriques Set13
Figura 17 - Lagar da Póvoa - Cristina Henriques Set13
1.6 - Lagar Velho da Póvoa II
Lagar que se no Canto do Lagar Velho na Póvoa, provavelmente
no início movido a bois?, mais tarde movido a fogo?, está em ruínas, pela área
que ocupa tinha uma dimensão considerável para a época.
Este lagar
era também de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 19).
Coordenadas:
39.65558275193413, -8.40507274337684
Figura 18 - Lagar Velho Póvoa -
Cristina Henriques Nov14
Figura 19 - Lagar Velho da Póvoa - Cristina Henriques Nov14
1.7 - Lagar da Póvoa III
Lagar
que já não existe, situava-se onde é agora a Casa Mortuária da Póvoa.
Coordenadas:
39.65823263549142, -8.404256010735796
1.8 - Lagar dos Vales
Lagar de
Edmundo de Freitas, localiza-se na Rua Principal nos Vales, lagar que foi
modernizado. Aqui a moagem já é feita através de martelos de aço inoxidável em
substituição das antigas mós de pedra.
Coordenadas: 39.686089970518196, -8.40643029077127
Figura 20 - Lagar dos Vales - Nuno
Ferreira Nov12
Figura 21 - Lagar dos Vales - Nuno
Ferreira Nov12
2
- Lagares do lado da Pedreira
2.1 - Lagar de
António Aparício Cardoso (genro do José Neto) e outros - Pedreira
O primeiro lagar que se conhece da Pedreira (fonte: Adelino Honrado) era de José Neto e depois do seu genro António Aparício Cardoso na rua do Canto, movido com motores a gasóleo, entretanto como este era pequeno passou a funcionar mais abaixo, com dois pisos, junto à Rua Carlos Augusto Coelho quase em frente ao lagar de António Pereira da Costa, que entretanto deixou de ser movido a gasóleo para passar a ser a eletricidade. Ambos os lagares foram substituídos por habitações. No entanto, ainda é possível distinguir alguns vestígios do primeiro lagar. A localização do segundo lagar é facilitada com o facto de o caminho a seu lado chamar-se “Az do Lagar”.
Coordenadas do primeiro: 39.640839748432875, -8.40816970321841
Coordenadas do segundo:
Figura 22 - 1º Lagar de José Neto - Fernando Gonçalves Abr26
2.2 - Lagar de
António Pereira da Costa - Pedreira
Lagar movido com animais, situava-se junto
à Rua Carlos Augusto Coelho quase em frente ao lagar de António Aparício Cardoso (genro do José Neto) e outros (fonte:
Adelino Honrado). O lagar também foi substituído por habitação.
Coordenadas:
2.3 - Lagar de
Manuel da Fonseca Balas* – Quinta da Granja
Lagar movido a água, situa-se em frente à Quinta da
Granja do Séc. XVI, o ribeiro de Paio Nunes era a força motriz deste lagar
entrando por baixo e acionando o rodízio, mas pela foto do moinho/galgas parece
ter sido também movido a animais? (quando o caudal da ribeira era pouco?), em
1990 já estava abandonado
Este lagar era também de vara pois ainda tem o peso utilizado para o enceiramento (fig. 25). No chão em 1997 ainda se podiam distinguir as tarefas ou fontes que recebiam a água ruça da mistura com o azeite (fig. 26).
A minha avó que hoje faz 94 anos (12 de abril de 2026), levantava-se de madrugada mais a irmã Lídia para irem apanhar azeitona na Quinta da Granja e lá ficavam durante a semana.
Coordenadas: 39.628056262255996,
-8.401985520761649
*Existem dúvidas se este senhor era o dono
do lagar da Quinta da Granja, pois aparece referenciado
Figura 23 - Lagar do Balas - Cristina
Henriques 1997
Figura 24 - Lagar do Balas - Cristina
Henriques 1997
Figura 25 - Lagar do Balas - Cristina Henriques 1997
2.4 - Lagar de João Azevedo e outros – S. Simão
Lagar referenciado no livro A Oliveira e o Azeite na
Região de Tomar – Usos e Costumes de Manuel da Silva Guimarães (Pág. 139) ),
mas que não sei qual a sua localização.
Doenças
tratadas com azeite:
Além da
Ribeira (Casais): Queimaduras, dores de estômago, constipações e bicha
solitária.
Pedreira:
Zipelas, queimaduras, quebrantos.
No Fetal
de Baixo as constipações curam-se com azeite, água quente e mel.
Doenças
curáveis com chá de folha de oliveira:
Além da
Ribeira (Casais): Dor de barriga, coração, dor de dentes, dor de estômago.
Pedreira: Coração.
Cancioneiro da Apanha da Azeitona
Fetal de Baixo
Namorados da Azeitona
São como os da cotovia
Acabada é a azeitona
Fica-te com Deus Maria
Menina do lenço branco
Com a sua nódoa de azeite
Já não há rapaz nenhum
Que a menina não enjeite
Digamos adeus à terra
Também ao nosso patrão
Nós vamos para a nossa casa
Levando-a no coração
Fervença
Azeitona verde é mimo
Eu também já fui mimosa
Como queres que eu te ame
Se eu de ti estou tão queixosa
Pedreira
A azeitona já está preta
Já se pode armar aos tordos
Diz-me lá ó cara linda
Como vais de amores novos
Corri a terra à volta
Oliveiras, olivais
Para ver se esquecia
Cada vez me lembro mais
Oliveira pequenina
Que azeitona pode dar
Um baguinho até dois
Já é muito que apanhar
Casal das
Várzeas, Fervença e Pedreira
Azeitona miudinha
Apanhada bago a bago
Estas meninas de agora
São piores do que o diabo
No pé duma oliveira
C’uma grande bebedeira
Deu-me o vento e catrapaz
Fui de ventas à torneira
Pedreira .
Porto de Cavaleiros
Corri atrás de ti
Oliveiras, olivais
Para ver se te apanhava
Cada vez foges mais
Ó raparigas, ó moças
Ó minhas leais amigas
Está-se a acabar o tempo
De ouvir as vossas cantigas
Acabámos, acabámos
Mas não de morrer agora
Acabámos a azeitona
Para nos irmos embora
Adivinha
Do tamanho de uma abelha, Enche a casa até
à telha
R: lâmpada de azeite
O levantamento desta informação tal como
toda a que está no meu blogue deve-se a valiosos contributos de Hilário Guia,
mas este artigo também teve informação prontamente disponibilizada por parte de um grande amigo o Fernando Gonçalves que foi logo procurar saber informação dos
lagares existentes na Pedreira.
Fontes bibliográficas:
Guimarães, M. d. (1979). A Oliveira e o Azeite na
Região de Tomar - Usos e Costumes. Tomar: Câmara Municipal de Tomar.
Salema, C. V. (1993). Coisas e
Loisas de Tomar. Tomar: Empresa Editora Cidade de Tomar.
Rosa, A.
(1965). História de Tomar I. Tomar: Gabinete de Estudos Tomarenses.
Obrigada marido e pimpolhos por vos obrigar a virem comigo. Bjs





