quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Os sistemas de retirar água para a indústria e agricultura da União de Freguesia de Além da Ribeira e Pedreira

O território da freguesia é atravessado pelo rio Nabão que permitiu a construção das três grandes fábricas de papel (Sobreirinho, Porto de Cavaleiros e Prado). No início da sua laboração, estas fábricas utilizavam a roda hidráulica como força motriz, restando apenas fotografias desse tempo.

No entanto, não foram apenas as fábricas a utilizar a roda hidráulica, os diversos sistemas de moagem (azenhas) espalhados pela região bem como os terrenos de produção agrícola existentes na freguesia também utilizaram este sistema de rega. Testemunho desta época, subsiste hoje apenas uma roda de ferro na freguesia. A roda hidráulica era um sistema de retirar água, mas não o único, também o território da freguesia é “pintalgado” com outros engenhos tradicionais, nomeadamente as noras e picotas.

Os registos históricos documentam a presença e evolução destes sistemas de retirar água na freguesia pelo menos dos finais do século XIX:

1884 – Sebastião Marques, da Fervença, tinha uma roda de regar entre as Lapas e Porto de Cavaleiros e estava a construir um canal de alvenaria, ao que parece para construir um moinho.”[i]

 

1.       Rodas Hidráulicas

A energia hidráulica no nosso país foi até à generalização da máquina a vapor importante para o desenvolvimento da indústria e por isso a instalação de grandes fábricas junto aos cursos de água permanentes. Por um lado, porque a água era fundamental para o desenrolar das várias fases do processo de produção, por outro lado, porque os cursos dos rios eram um fator energético importante. Nos países em que se verificava a escassez do carvão a energia hidráulica teve até ao final do século XIX um papel importante para a utilização intensiva da roda hidráulica (Matos, 2002).

Funcionamento e estrutura

Nas rodas, a água serve simultaneamente como força motriz – que faz girar a estrutura com os alcatruzes – e como recurso a ser elevado para a irrigação dos campos. Para que a roda funcione é indispensável que haja uma corrente de água suficientemente forte para fazer girar a roda e elevar a água. Só se pode, por isso, utilizar em rios baixos, onde a água corre durante o verão.

Como nem todos os rios oferecem naturalmente estas condições, é costume guiar a água na direção da roda por meio de um canal largo, que vai estreitando cada vez mais. Este canal tem o nome de sobre-calhão, e, no lugar mais estreito, onde está mergulhada a extremidade inferior das rodas, cujas penas lhe imprimem o movimento giratório, chama-se calhão.

O suporte da roda. Tradicionalmente conhecido como burra, era inicialmente construído em madeira de pinheiro manso, passando posteriormente a ser de alvenaria. O restante engenho, à exceção do eixo (fabricado em madeira de carvalho pela sua resistência), era construído em pinheiro bravo, pois o pinheiro manso, embora dure mais, torce com o calor[ii].

O funcionamento da roda hidráulica assemelhava-se ao das azenhas, surgindo frequentemente associados: a água que corria pelo mesmo canal ou gola movia os dois aparelhos.

Junto ao rio Nabão existiram pelo menos oito rodas hidráulicas. Algumas dedicadas exclusivamente à irrigação, outras utilizadas como força motriz das fábricas e dos moinhos.

 

1.1. Roda de ferro junto ao rio Nabão (entre as Lapas e o Sobreirinho)

Esta roda, construída em ferro, apresenta uma estrutura significativamente mais sólida que as construídas em madeira. Os alcatruzes presos aos arcos da roda, são feitos de folha de metal. A água elevada é vertida numa calha de alumínio, que por sua vez, a encaminha para uma levada de cimento.

Coordenadas: 39.65631915021742, -8.40895820142228

Roda perto do Sobreirinho - 2020Roda perto do Sobreirinho - 2020

Figura 1 - Roda de ferro localizada no Rio Nabão

Fonte: Fotografia do autor, 2020

1.            1.2 Roda junto à Fábrica de Papel do Sobreirinho (Início em 1868)

 

Tratava-se de uma roda de madeira que, à semelhança da estrutura da Fábrica de Porto de Cavaleiros, servia de apoio ao funcionamento.

                                

Figura 2 - Roda na Fábrica de Sobreirinho

Fonte: Arquivo digital (Facebook), anterior a 1990

                                         Localização da roda na antiga fábrica do Sobreirinho - 2013

Figura 3 - Canal ou gola da Roda junto à Fábrica do Sobreirinho

Fonte: Fotografia do autor, 2020

 

1.      1.3. Roda da Fábrica de Papel de Porto de Cavaleiros (Inauguração em 1882)

 


Figura 4 - Roda na Fábrica de Porto de Cavaleiros

Fonte: Arquivo digital (Facebook), anterior a 1990

1      1.4.  Roda junto ao Sobreirinho


 

Figura 5 - Roda localizada na margem direita do rio Nabão no Sobreirinho

Fonte: Fotografia de Casimiro Cacho, 2010

 

    1.5. Antiga localização da Roda junto ao Caldeirão

Segundo a D. Ilda Henriques (Pedreira) havia uma roda nas hortas perto do Prado de Joaquim Correia e outra nas hortas do Caldeirão de José Neto.

                                             Suporte Roda em frente Fonte do Caldeirão - 2021

Figura 6 - Suporte da roda ou burra em frente à fonte do Caldeirão

Fonte: Fotografia de Nuno Ferreira, dezembro de 2021

1.6. Roda?

 


Figura 7 - Fotografia existente na Casa do Cabeço na Póvoa

Fonte: Fotografia de Margarida Pacheco, 2010

1.7. Roda em Porto da Figueira (entre o Canteirão e Porto de Cavaleiros)

Figura 8 – Roda no Porto da Figueira

Fonte: Fotografia de Filo Neves, 2010

                       

Figura 9 - Roda no Porto Figueira 1940

Fonte: Fotografia de Margarida Pacheco, 2010

2.      Picotas

A picota – termo com origens linguísticas atribuídas ao céltico, árabe ou francês? Engenho simples, tosco em madeira,  que serve para tirar água dos poços pouco fundos ou de vales, rios e ribeiras, para as regas, formada por uma longa vara ou tronco basculante, o vaivém, chamado balança, balanço, esteio ou cambão, de pinheiro, eucalipto, ... , que se apoia, através de um eixo, num prumo ou poste vertical, denominado pégão ou pilar, forquilha ou garfo e tem numa das extremidades um peso devidamente calculado, uma simples pedra e na outra suspenso, de duma haste rígida- a varela-, onde fica preso o balde de zinco ou de madeira, destinado à elevação da água, que é deitada no tombadouro ou tabuleiro, que podia ser de zinco ou madeira, indo de seguida, para os regos ou leiras para fazer a rega direta. Este aparelho também é conhecido por cegonha (semelhança com esta ave pernalta), burra. Na freguesia da Serra (Tomar) era conhecida por gaivota ou balança.

Tratava-se de um trabalho árduo e penoso, realizado por homens e mulheres, pouco amigo de suas mãos. Uma manhã agarrado a uma varela, era uma manhã que não agradava a ninguém. Normalmente, a água não era armazenada, seguindo, diretamente, para as terras a regar, o que exigia mais uma pessoa para a encaminhar até ao destino[iii].

 

Coordenadas: 39.6872830620719, -8.41136626580029

Figura 10 - Picota junto à Travessa da Lagoa no Vale do Poço

                  Fonte: Fotografia do autor, setembro de 2013

 

Imagem de uma picota mais completa, onde se vê o poço delimitado por estacas de madeira

3.      Noras

A nora é um engenho para tirar água dos poços, ribeiras e rios. As noras das imagens que se seguem possuem uma haste horizontal (cambeão do engenho) acoplada a um eixo vertical que por sua vez está ligado a um sistema de rodas dentadas. Este sistema faz circular um conjunto de alcatruzes entre o fundo do poço e a superfície. Os alcatruzes descem vazios, enchem-se no fundo do poço, regressam e quando atingem a posição mais elevada começam a verter a água numa calha que a conduz para horta ou para pequenos tanques de pedra. É um engenho de tração animal (burro ou mula com os olhos tapados de lado), o qual é preso à haste horizontal e em movimentos circulares (no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio) vai retirando a água do poço. Vieram substituir as picotas ou cegonhas[iv].

 


Figura 11 - Nora com um tanque de pedra

Fonte: Fotografia de Nuno Ferreira, setembro de 2013

 


Figura 12 - Nora a caminho do Cairrão

Fotografia de Nuno Ferreira, setembro de 2013

                                        

Figura 13 - Nora junto à Fonte do Caldeirão

Fotografia de Nuno Ferreira, setembro de 2020

4.       A transição dos sistemas de rega tradicionais

A picota e a nora eram sistemas de retirar água que nem todos tinham (seja pela falta de capacidade financeira ou pelas condições específicas no terreno), e por isso muitas vezes a água era retirada a baldes com uma corda presa e depois puxada, ou com auxílio de uma roldana que estava por cima do poço o que facilitava um pouco mais a subida dos baldes com água.

Com o passar do tempo e a evolução tecnológica na agricultura, estes sistemas de retirar água caíram em desuso, encontrando-se atualmente abandonados ou destruídos. Foram progressivamente substituídos pelos motores e eletrobombas a gasolina, instalados junto às margens do rio ou à boca dos poços, oferecem um caudal superior e constante, encaminhando a água para os canais de rego abertos com a enxada ou para alguma levada existente que por sua vez era encaminhada para os terrenos agrícolas.

 

Fontes bibliográficas:

Câmara Municipal de Tomar. (outubro de 1992). Boletim Cultural da Câmara Municipal de Tomar nº17. O rio, as rodas e os açudes, pp. 45-47.

 Matos, A. C. (2002). Indústria e ambiente no século XIX. Em Ler História,42 (pp. 119-152). Évora.

https://capeiaarraiana.pt/2015/04/22/as-culturas-de-regadio/ (consultado a 18ago26)











Sem comentários:

Enviar um comentário