O território da freguesia é
atravessado pelo rio Nabão que permitiu a construção das três grandes fábricas
de papel (Sobreirinho, Porto de Cavaleiros e Prado). No início da sua
laboração, estas fábricas utilizavam a roda hidráulica como força motriz,
restando apenas fotografias desse tempo.
No entanto, não foram apenas as
fábricas a utilizar a roda hidráulica, os diversos sistemas de moagem (azenhas)
espalhados pela região bem como os terrenos de produção agrícola existentes na
freguesia também utilizaram este sistema de rega. Testemunho desta época, subsiste
hoje apenas uma roda de ferro na freguesia. A roda hidráulica era um sistema de
retirar água, mas não o único, também o território da freguesia é “pintalgado”
com outros engenhos tradicionais, nomeadamente as noras e picotas.
Os registos históricos documentam
a presença e evolução destes sistemas de retirar água na freguesia pelo menos
dos finais do século XIX:
“1884 – Sebastião Marques, da Fervença, tinha
uma roda de regar entre as Lapas e Porto de Cavaleiros e estava a construir um
canal de alvenaria, ao que parece para construir um moinho.”[i]
1.
Rodas Hidráulicas
A energia hidráulica no nosso
país foi até à generalização da máquina a vapor importante para o
desenvolvimento da indústria e por isso a instalação de grandes fábricas junto
aos cursos de água permanentes. Por um lado, porque a água era fundamental para
o desenrolar das várias fases do processo de produção, por outro lado, porque
os cursos dos rios eram um fator energético importante. Nos países em que se
verificava a escassez do carvão a energia hidráulica teve até ao final do
século XIX um papel importante para a utilização intensiva da roda hidráulica
Funcionamento
e estrutura
Nas rodas, a
água serve simultaneamente como força motriz – que faz girar a estrutura com os
alcatruzes – e como recurso a ser elevado para a irrigação dos campos. Para que
a roda funcione é indispensável que haja uma corrente de água suficientemente
forte para fazer girar a roda e elevar a água. Só se pode, por isso, utilizar
em rios baixos, onde a água corre durante o verão.
Como nem todos
os rios oferecem naturalmente estas condições, é costume guiar a água na
direção da roda por meio de um canal largo, que vai estreitando cada vez mais.
Este canal tem o nome de sobre-calhão, e, no lugar mais estreito,
onde está mergulhada a extremidade inferior das rodas, cujas penas lhe imprimem
o movimento giratório, chama-se calhão.
O suporte da roda.
Tradicionalmente conhecido como burra, era inicialmente construído em
madeira de pinheiro manso, passando posteriormente a ser de alvenaria. O
restante engenho, à exceção do eixo (fabricado em madeira de carvalho pela sua
resistência), era construído em pinheiro bravo, pois o pinheiro manso, embora
dure mais, torce com o calor[ii].
O funcionamento da roda
hidráulica assemelhava-se ao das azenhas, surgindo frequentemente associados: a
água que corria pelo mesmo canal ou gola movia os dois aparelhos.
Junto ao rio Nabão existiram pelo
menos oito rodas hidráulicas. Algumas dedicadas exclusivamente à irrigação,
outras utilizadas como força motriz das fábricas e dos moinhos.
1.1.
Roda de ferro junto ao rio Nabão (entre as Lapas e o Sobreirinho)
Esta roda, construída em ferro,
apresenta uma estrutura significativamente mais sólida que as construídas em
madeira. Os alcatruzes presos aos arcos da roda, são feitos de folha de metal.
A água elevada é vertida numa calha de alumínio, que por sua vez, a encaminha
para uma levada de cimento.
Coordenadas: 39.65631915021742,
-8.40895820142228
Figura 1 - Roda de
ferro localizada no Rio Nabão
Fonte:
Fotografia do autor, 2020
1. 1.2 Roda junto
à Fábrica de Papel do Sobreirinho (Início em 1868)
Tratava-se de
uma roda de madeira que, à semelhança da estrutura da Fábrica de Porto de
Cavaleiros, servia de apoio ao funcionamento.
Figura 2
- Roda na Fábrica de Sobreirinho
Fonte: Arquivo digital
(Facebook), anterior a 1990
Figura 3
- Canal ou gola da Roda junto à Fábrica do Sobreirinho
Fonte:
Fotografia do autor, 2020
1. 1.3. Roda da
Fábrica de Papel de Porto de Cavaleiros (Inauguração em 1882)
Figura 4
- Roda na Fábrica de Porto de Cavaleiros
Fonte: Arquivo digital (Facebook), anterior a 1990
1 1.4. Roda junto
ao Sobreirinho
Figura 5
- Roda localizada na margem direita do rio Nabão no Sobreirinho
Fonte: Fotografia de Casimiro
Cacho, 2010
1.5. Antiga localização da Roda junto ao Caldeirão
Segundo a D. Ilda Henriques (Pedreira) havia uma roda
nas hortas perto do Prado de Joaquim Correia e outra nas hortas do Caldeirão de
José Neto.
Figura 6
- Suporte da roda ou burra em frente à fonte do Caldeirão
Fonte: Fotografia de Nuno
Ferreira, dezembro de 2021
1.6. Roda?
Figura 7
- Fotografia existente na Casa do Cabeço na Póvoa
Fonte: Fotografia de Margarida Pacheco, 2010
1.7.
Roda em Porto da Figueira (entre o Canteirão e
Porto de Cavaleiros)
Figura 8 – Roda no Porto da
Figueira
Fonte: Fotografia de Filo Neves,
2010
Figura 9 - Roda no Porto
Figueira 1940
Fonte: Fotografia de Margarida Pacheco, 2010
2.
Picotas
A picota – termo com origens linguísticas atribuídas ao
céltico, árabe ou francês? Engenho simples, tosco em madeira, que serve
para tirar água dos poços pouco fundos ou de vales, rios e ribeiras, para as
regas, formada por uma longa vara ou tronco basculante, o vaivém,
chamado balança, balanço, esteio ou cambão, de pinheiro, eucalipto, ... ,
que se apoia, através de um eixo, num prumo ou poste vertical, denominado pégão
ou pilar, forquilha ou garfo e tem numa das extremidades
um peso devidamente calculado, uma simples pedra e na outra suspenso,
de duma haste rígida- a varela-, onde fica preso o balde de zinco ou de
madeira, destinado à elevação da água, que é deitada no tombadouro ou
tabuleiro, que podia ser de zinco ou madeira, indo de seguida, para os regos ou
leiras para fazer a rega direta. Este aparelho também é conhecido por cegonha (semelhança
com esta ave pernalta), burra. Na freguesia da Serra (Tomar) era conhecida por
gaivota ou balança.
Tratava-se de um trabalho árduo e penoso, realizado
por homens e mulheres, pouco amigo de suas mãos. Uma manhã agarrado a uma
varela, era uma manhã que não agradava a ninguém. Normalmente, a água não era
armazenada, seguindo, diretamente, para as terras a regar, o que exigia mais
uma pessoa para a encaminhar até ao destino[iii].
Coordenadas: 39.6872830620719,
-8.41136626580029
Figura 10 - Picota junto à
Travessa da Lagoa no Vale do Poço
Fonte: Fotografia do autor, setembro de 2013
3.
Noras
A nora é um engenho
para tirar água dos poços, ribeiras e rios. As noras das imagens que se seguem possuem
uma haste horizontal (cambeão do engenho) acoplada a um eixo vertical que por sua
vez está ligado a um sistema de rodas dentadas. Este sistema faz circular um
conjunto de alcatruzes entre o fundo do poço e a superfície. Os alcatruzes
descem vazios, enchem-se no fundo do poço, regressam e quando atingem a posição
mais elevada começam a verter a água numa calha que a conduz para horta ou para
pequenos tanques de pedra. É um engenho de tração animal (burro ou mula com os
olhos tapados de lado), o qual é preso à haste horizontal e em movimentos
circulares (no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio) vai retirando a
água do poço. Vieram substituir as picotas ou cegonhas[iv].
Figura 11 - Nora com um tanque
de pedra
Fonte:
Fotografia de Nuno Ferreira, setembro de 2013
Figura 12 - Nora a caminho do
Cairrão
Fotografia de Nuno Ferreira,
setembro de 2013
Figura 13 - Nora junto à Fonte
do Caldeirão
Fotografia de Nuno Ferreira, setembro
de 2020
4.
A transição dos
sistemas de rega tradicionais
A picota e a nora eram sistemas de retirar água que
nem todos tinham (seja pela falta de capacidade financeira ou pelas condições
específicas no terreno), e por isso muitas vezes a água era retirada a baldes
com uma corda presa e depois puxada, ou com auxílio de uma roldana que estava
por cima do poço o que facilitava um pouco mais a subida dos baldes com água.
Com o passar do tempo e a
evolução tecnológica na agricultura, estes sistemas de retirar água caíram em
desuso, encontrando-se atualmente abandonados ou destruídos. Foram progressivamente
substituídos pelos motores e eletrobombas a gasolina, instalados junto às
margens do rio ou à boca dos poços, oferecem um caudal superior e constante,
encaminhando a água para os canais de rego abertos com a enxada ou para alguma
levada existente que por sua vez era encaminhada para os terrenos agrícolas.
Fontes bibliográficas:
Câmara Municipal de Tomar. (outubro de 1992). Boletim
Cultural da Câmara Municipal de Tomar nº17. O rio, as rodas e os açudes,
pp. 45-47.
https://capeiaarraiana.pt/2015/04/22/as-culturas-de-regadio/ (consultado a 18ago26)
[i]
[ii] https://books.openedition.org/etnograficapress/6158
09fev2022 (consultado a 18ago26)
[iii] https://jf-fanhoes.pt/azenhas-picotas-e-noras/ (consultado a 18ago26)
[iv] https://aldrabaassociacao.blogspot.com/2014/05/a-picota-um-engenho-do-patrimonio.html (consultado a 18ago26)




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