domingo, 5 de maio de 2024

Os Canteiros e a extração da pedra na União de Freguesias de Além da Ribeira e Pedreira






A existência de pedra na nossa freguesia levou a que pelo menos desde o início da construção do Castelo de Tomar surgisse a profissão/ofício do canteiro. Tendo levado a que muitos do homens da freguesia  passassem a trabalhar em profissões ligadas à pedra, ao seu transporte e transformação (talvez ao princípio mais do lado da Junta de Freguesia da Pedreira, pela proximidade e à posterior também passou-se a ir buscar pedra a Além da Ribeira).

A toponímia da aldeia da Pedreira, “os buracos” agora existentes nos locais onde existe pedra são evidências desta relação que se perde no tempo, uma relação identitária que recua vários séculos.

No livro de Amorim Rosa História de Tomar I podemos confirmar de que a pedra para a construção do Castelo viria de várias pedreiras do Concelho nomeadamente da Pedreira.                                                      

Figura 1 - Extração do livro História de Tomar I de Amorim Rosa[i]

Na década de 90 o Rancho Folclórico "Os Canteiros" da Pedreira[ii](RFCP) realizou algumas recriações, nomeadamente:  o trabalho do canteiro. 

Figura 2 - Reconstituição do trabalho do canteiro pelo RFCP[iii] 

Descrição da imagem anterior:

O elemento do meio (Hugo Canha) está sentado no coxo: peça de madeira que para além de permitir servir de assento também era utilizado para o transporte de algumas ferramentas tais como a maceta, escopros, picões ...

Na fotografia temos à esquerda o Tó (António Anjos), o Sr. Jacinto (por trás), o Hugo Canha e o Sr. António Rodrigo (o canteiro). à direita, muitos anos acompanhou o Rancho tocando as canas, deixando alguns ensinamentos sobre o trabalho do Canteiro.

Também na mesma época foi feito um trabalho em texto do José Carlos com o RFCP sobre o trabalho dos Canteiros que transcrevo de seguida:

O texto descreve o trabalho dos canteiros desde a extração da pedra até à sua aplicação final.

“Em primeiro lugar a pedra era extraída de locais denominados cabocos ou barrocos, que são penedos isolados e informes.

Logo que eram localizados a primeira coisa a fazer era descobrir os bancos de pedra, para tal utilizavam a pólvora contudo antes da pólvora usavam o lume sobre a pedra de forma a conseguirem tirar terra e pedras soltas, ficando somente as grandes bancadas, que depois seriam extraídas.

Os instrumentos que utilizavam para a sua extração eram vários, sendo os principais as alavancas, os picões, as cunhas e as marretas.

O processo mais usual da extração consistia em abrir um roço ou sulco na pedra, utilizando para isso o picão que é um instrumento de aço, encabado, de duas hastes curtas e aguçadas nas pontas com o qual os canteiros picavam a pedra abrindo assim uma fenda estreita, comprida e pouco profunda.

Deste modo o roço estava feito, de forma que procediam à colocação de alhões que eram restos de ferraduras dos bois, junto com cunhas que eram peças de ferro ou madeira com duas faces em ângulo bastante agudo para fazerem aperto.

O aperto consistia em bater com as marretas em cima das cunhas até a pedra partir.

Uma vez extraída a pedra, era necessário transportá-la para os locais de trabalho, este transporte tanto podia ser feito por dois homens que carregavam a pedra em cima de dois paus a que davam o nome de pranchas ou maimeis, tendo que um deles agarrar os paus à frente e o outro à retaguarda, ou então pela força da gravidade empurravam a pedra que rolando pelos grandes declives tornava o transporte mais rápido e fácil de executar, no entanto tudo dependia do local onde a pedra ia ser trabalhada.

Os locais onde trabalhavam a pedra eram simples barracas, aqui a pedra era colocada em cima de 2 ou 4 pedras que tinha o nome de telheiros. Os telheiros tinham a finalidade de serem o suporte, isto é, funcionavam como cavaletes de pedra que ia ser trabalhada e por isso nunca eram trabalhados, eles tinham sempre a largura e a altura desejada dos canteiros, tudo dependia do tamanho da pedra que iam trabalhar.

Para trabalhar a pedra, os canteiros utilizavam vários instrumentos que eram os seguintes: esquadros, compassos, macetas, ponteiros, escopros, picões, picolas e bojardas que eram geralmente feitos de aço.

- Os esquadros e compassos serviam para medir e traçar a pedra para assim lhe poderem dar a forma pretendida.

- As macetas usavam-nas para bater nos ponteiros.

- Os escopros, instrumentos cortantes serviam para desbastar a pedra.

- Os picões para abrir os roços, isto é, pequenas fendas na pedra.

- As picolas tinham a finalidade de aperfeiçoar o trabalho, entretanto foram substituídas pelas bojardas que fazem um aperfeiçoamento mais completo.

Enquanto trabalhavam os canteiros sentavam-se num banco que tinha o nome de coxo.

O coxo, para além de servir de assento, servia também para ser transportada para os locais de sua aplicação. Geralmente o transporte era feito por carroças ou galeras puxadas pelos muares ou carros de bois.

A maioria dos trabalhos feitos pelos canteiros eram para a construção civil, tais como umbreiras, peitoris, soleiras e para além de outros faziam também trabalhos de ornamentação de maior ou menor envergadura consoante o local para onde se destinavam.

A título de curiosidade, estes homens artesãos como eram, dedicavam-se também a fazer trabalhos de adornos para salas e cozinhas, tais como: candeeiros, almofarizes, fruteiras, pratos, pias, enfim um não mais acabar de trabalhos ainda hoje de uma utilidade sem par, que nem o decorrer dos tempos deu origem ao seu desaparecimento."

 

Figura 3 - Instrumentos de canteiro - Internet[iv]

 

Na ladeira das Taliscas podemos observar algumas marcas do corte feito na pedra a picão [v].

No final da ladeira das taliscas encontramos também uma buraca e um telheiro reconstruído onde muito provavelmente alguns dos Canteiros da Pedreira utilizaram para se abrigar.

Figura 4 - Buraca e telheiro na Ladeira das Taliscas . CH2020

A memória dos canteiros da Pedreira, outrora representada por figuras como António Carrão, permanece ativa na contemporaneidade através da Oficina de Cantaria dos irmãos Luís e Rui Rodrigo.

Figura 5 - António Carrão[vi]

 

Figura 6 - Esculturas de Luís Rodrigo[vii] 

Na Pedreira encontramos a arte da cantaria em algumas habitações:

Figura 7 - Trabalho de cantaria na Pedreira . CH2023

 

Do lado de Além da Ribeira:

A pedra era extraída do Murtinhal e do Barreirão (extração junto à ribeira do Fetal até ao lagar do Pereiro).

Transportada em 2 (duas) carroças a pedra era aparelhada no estacionamento junto ao agora café do Prado.

 

  

Figura 8 - Local de extração de pedra no Murtinhal - CH2014

Figura 9 . Local de extração de pedra no Barreirão - CH2014

Do Barreirão saia um carro puxado por 4 bois, sendo descarregada junto à antiga casa que servia de escola (cruzamento da rua dos Fetais e da rua da Igreja), depois iam buscar outra meia carrada e assim desta forma ficava completa a carga. 

A filha do balseiro (Cecília que mora na zona de Lisboa) tirou de lá pedra com os bois e o seu avô (pai do balseiro) que era cego fez o mesmo, através da apalpação conseguia saber quando a carrada estava completa.

Nesta zona só os acabamentos da pedra que era para aplicar na zona era aparelhada no local, caso contrário ia para o Prado

Cerca de 1935 já pessoal da Pedreira tirava daqui pedra, vindo pela zona das Lapas, atravessando o rio Nabão, onde hoje a ribeira do Fetal entra no rio. Mais tarde o "xico cigano" do Fetal de Baixo (avô da Cristina Cacho) e o Luís Perdigoto que mais tarde morou na Póvoa é que passaram a controlar as pedreiras.

Chegou a haver também uma barraquita de acabamentos e também extração de pedra na rua do Carqueijal (no vale – Fetal de Baixo). 

Houve mais dois locais de extração, uma perto da rua da Bela Vista (traseiras da habitação da Cabeleireira - D. Custódia - Vale Venteiro), a outra depois na rua do Vale das Aroeiras a caminho da Igreja e que chegava à ribeira do Fetal.

Destas pedreiras saiu pedra para fazer muitas levadas existentes na zona, para a Escola do Fetal, para a Barragem do Castelo de Bode e para o edifício da Caixa Geral de Depósitos onde agora funciona a Divisão da Educação e Ação Social da Câmara Municipal de Tomar.


Figura 10 - Levada de água junto aos moinhos da Fervença - CH2014









Figura 11 - Caixa Geral de Depósitos de Tomar[viii]

Cerca do ano de 1960 a exploração parou porque passou a ser mais rentável a pedra vir da zona de Fátima.

Informação sobre Além da Ribeira foi recolhida e cedida por Hilário Guia.

 



[i] Rosa, A. (1965). História de Tomar I. Tomar: Gabinete de Estudos Tomarenses.

[ii] O Rancho Folclórico "Os Canteiros" da Pedreira (https://www.facebook.com/ranchofolclorico.pedreira) carateriza-se por ser uma associação com o intuito de divulgar as tradições, danças, gastronomia e o trajar do período 1890 a 1920. 

[iii] https://www.facebook.com/photo/?fbid=302399303185578&set=pb.100002465321634.-2207520000

[iv]  https://inventariobensculturais.cascais.pt/ficha.aspx?id=82&ns=206000&Lang=PO&IPR=-1

[v] (PR1 "Vale do Nabão" Ficha Técnica: Execução artística: Hugo Brás Colaboração: Domingos Patacho jf-pedreira). 

[vi] https://tomarnarede.pt/destaque/morreu-um-dos-ultimos-canteiros/#google_vignette

[vii] https://convergenciasarte.wordpress.com/sitios-da-pedra-i-sitios-e-gentes/

[viii]https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Vista_aproximada_para_Edif%C3%ADcio_da_Caixa_Geral_de_Dep%C3%B3sitos,_CGD,_de_Tomar.jpg

 


 



quinta-feira, 2 de maio de 2024

Tabuleiro - Flor - Ibisco (outras cores)

 

Moldes da Flor do Ibisco

Tabuleiro de Ibiscos

Flor do Ibisco em Papel

Flor do Ibisco em Papel

Tabuleiro de Ibiscos

https://ciprest.blogspot.com/2017/06/hibisco-branco-de-flores-grandes-com.html

https://sabordefazenda.com.br/panc/tipos-de-hibiscos/

"Algumas mãos dos tabuleiros"







quinta-feira, 18 de abril de 2024

A cerâmica Silva&Silva e forno de telha na União de Freguesias de Além da Ribeira e Pedreira

 

Cerâmica Silva & Silva

Nos Vales junto ao Lagar, existe ainda vestígios da antiga cerâmica para produção de telha Marselha explorada pelos Silva & Silva (um era o Manuel do Marco – Berruga, o outro conhecido pelo Peixe Macho), tendo fechado em 1955.

Coordenadas: 39.68561720225358, -8.406374632503585

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Figura 1 - Interior da cerâmica Silva&Silva - CH2014

                                           

Figura 2 - Parede exterior da cerâmica Silva&Silva - CH2014


Figura 3 - Telha Marselha da cerâmica Silva&Silva - CH2014




Forno de Telha

Na mesma freguesia, a caminho de Porto Compadre, existiu também um Forno de Telha de Canudo. O seu funcionamento e arquitetura assemelhavam-se aos tradicionais Fornos de Cal (estruturas cilíndricas em poço que otimizavam a retenção de calor por tiragem vertical).

Coordenadas: 39.6716098698827, -8.423587953696622

Enquadramento da produção da telha de Marselha em Portugal:

A telha Marselha teve origem em França e foi patenteada em 1841 pelos irmãos Gilardoni na região de Marselha. Chegou a Portugal no final do século XIX, revolucionando a arquitetura local ao substituir progressivamente a tradicional telha de canudo (ou árabe). 

Antes da introdução deste modelo, as coberturas portuguesas dependiam da telha de canudo (origem árabe), que exigia muita argamassa, sofria com constantes infiltrações e limitava a inclinação dos telhados. A telha Marselha resolveu estes problemas através de características inovadoras para a época

O formato da telha Lusa (também chamada de "aba e canudo") surgiu em Portugal no final da década de 1920 (por volta de 1927) como uma invenção e orgulho da indústria lusitana. O objetivo era claro: unir o melhor de dois mundos. 

 

 

Fontes do artigo:

·         Testemunho oral de Hilário Guia

·         Castro, C. A. M. R., Mascarenhas-Mateus, J., & Pires, A. G. "As mansardas da Baixa Pombalina de Lisboa..."

·         Dados Técnicos e Glossário da Cerâmica Torreense

 




terça-feira, 16 de abril de 2024

Tabuleiro - Flor - Ibisco


Moldes da Flor do Ibisco

Flor do Ibisco em Papel

Tabuleiro de Ibiscos


Imagem de Ibisco ao natural
https://www.alamy.es/imagenes/hibisco-morado.html?sortBy=relevant

"Algumas mãos dos tabuleiros"


domingo, 7 de abril de 2024

Moinhos do Prado - Dia Nacional dos Moinhos

 

Hoje dia 07 de abril de 2024 comemora-se o Dia Nacional dos Moinhos

A publicação que faço é minha intenção lembrar que antes da existência da Fábrica de Papel do Prado, funcionou um engenho de balas e antes deste moinhos de produção de farinha.

Ainda existem vestígios desse passado. Fotografias partilhadas no Facebook são prova disso

De seguida transcrevo excertos que fazem referência aos moinhos do Prado retirados de alguns Anais do Município de  Tomar e do livro História de Tomar Vol.I de Amorim Rosa 

-Herdade dos Moinhos do Prado – Mestre do templo – Comendador e Alcaide de Tomar

Carta de doação à ordem do Templo de uma herdade aonde se chama Moinhos do Prado:

«em nome de Deus notificamos aos presentes e aos futuros que eu, Don Ooiro, de acordo com a minha mulher Toda Mendes, temente de Deus, por nossa morte damos a Deus e à Casa do templo, toda a nossa herdade tal como a havemos vista, nos Moinhos do Prado.

E Dona Toda ficará com o uso fruto depois da morte de Don Ooiro.

Igualmente ficam os freires os moinhos da moenga.

Para confirmar este facto estiveram presentes ...D. Tomás fez. Feita no mês de fevereiro de 1217 (1179).

Em fevereiro de 1179, D. Ooiro doou à Ordem do Templo a sua herdade dos Moinhos do Prado reservando o usufruto para sua mulher D. Toda Mendes. Era então o comendador de Portugal D. Frei Raimundo, e de Tomar D.  Frei Martinho Formarigo. (Rosa, 1965)

Foi mandado fazer pelo Comendador de Portugal, D. Raimundo, e pelo Comendador de Tomar, D. Martinho Formarigo, e seu capelão D. Luís Martins.

Quem falseie seja excomungado com vida e, depois , precipitado no inferno.

Testemunhas: Pedro Gonçalves, presbítero; Gonçalo Dias; Pedro Mendes, etc. Pág. 48 

 IV – Comenda do Prado

Essa Comenda haja moinhos do Prado que são 6 e uma sede para moinho

A horta e o olival que valem  600 libras

Idem os casais que hi são feitos de Aquém e Além do Rio

Idem as caas de morada desse logar ..

»»Adega da Várzea Pequena que se chama «do Prado»

»» a vinha que tem Porto Carreiro

Do prado, já sabemos que foi doado em Fevereiro de 1217 ( 1179 da nossa era), e consta que os moinhos datam do primeiro procurador do Templo em Portugal, o que me parece um tanto duvidoso pois remontá-los-ia à segunda ou terceira década do Século XII, em que o Prado ainda estava nas «terras de ninguém», embora afastado das «penetrantes principais». Pág 67 (Rosa, 1965)

IV – Comenda do Prado                                                                                                                  

Esta comenda haja os moinhos desse lugar que son seis moynhos em huã casa h~u sede para moynho seo hos que serem fazer cá a orta, o olival desse logo, que valem de renda   900£. (pág 66 (Rosa, 1965))

Os 4 casais que hy afectos que 3 aquém e hum além do Rio. Idem as casas de morada desse logo. Idem a Adega de Várzea Pequena que chamam do Prado. Idem nas Avessadas as vinhas do Quarto. Idem a vinha que tem Portocarreyro (porto de cavaleiros?) com as oliveiras. Idem umas poucas oliveiras que jazem a soan desse ponto. Idem o olival que tem Lourenço Martins e Domingos Pires e seus filhos da Atalaya.

Idem as oliveiras que tem d Alvegaria de S. Pedro.

Fonte: Rosa, A. (1965). História de Tomar I. Tomar: Gabinete de Estudos Tomarenses.

1504 – muito antes de incorporada a Comenda do Prado no Convento, a quando da visitação de 1504, se encontrou ali erigido, por ordem régia, um engenho de balas, junto ao moinhos, o qual andava com a água da levada deles, sem que se satisfizesse ao Convento o terreno do dito engenho.

Fonte: ANAIS DO MUNICIPIO DE TOMAR 1454-1580

Pág 52 (Rosa, 1965)

I)                    Ferrarias

2) As do Prado

Não sabemos quando os velhos moinhos foram substituídos, em parte, pela Fábrica das Balas. A primeira referência a esta, vem na Corografia Portuguesa do Padre António Carvalho da Costa, e é referente a 1701.

Fonte: ANAIS DO MUNICIPIO DE TOMAR 1581-1700

1835 – o diário do Governo nº256, de 30 de outubro, manda por em hasta pública, em 23 de janeiro de 1836, os seguintes bens da Ordem de Cristo: Os Moinhos do Prado, de fazer farinha, que constam de 3 casas, uma das quais serve de cavalariça, e outras duas de residência dos moleiros, com duas hortas pequenas, uma várzea e terras de pão. Tem 5 pedras, 2 de azenha e 3 de rodizio, sendo 3 alveiras e 2 secundeiras. Partem de todos os lados com terras pertencentes ao extinto convento. Vai à praça em 2435$00

Fonte: Pág. 430 ANAIS DO MUNICIPIO DE TOMAR 1801-1839